Memórias de minha Infância Rural
O leitor quando se depara com um texto, como o acima epigrafado, logo quer
saber quem é o seu autor. Pois bem! Sou o doutor José Carlos Dias de Toledo,
médico ortopedista aposentado, com vocação rural, nascido na cidade paulista de
Bebedouro, no dia 10 de novembro de 1924, portanto, com 88 anos de juventude
acumulada.
Filho de Lúcio Dias de Toledo e Maria de Lourdes Moura de Toledo,
descendentes de tradicionais famílias de Bebedouro e Caçapava, no interior do
Estado de São Paulo.
Aos cinco anos de idade, mudei- me para a fazenda de gado, São Sebastião,
situada no município de Orindiúva, SP, às margens do Córrego da Mandioca,
afluente do Rio Grande, que divide Minas Gerais e São Paulo, extremo norte
deste Estado.
Passei a desfrutar de uma das fases mais fascinantes da minha vida, num
mundo verdadeiramente maravilhoso. Este inesquecível sentimento de alegria,
motivou-me a fazer uma varredura histórica e retrospectiva dos acontecimentos,
usos e costumes importantes, tintim por tintim, inserindo algumas ilustrações.
Posso dizer que, guardei na memória a visão do imenso prazer que sentia ao
jogar futebol e bola de gude, caçar passarinhos, ora com estilingue, ora com
arapuca; pescar, andar a cavalo e de carroça e, particularmente, colher frutas
no pomar da fazenda, disputando com os meninos que lá moravam, quem chuparia
mais laranjas. Tudo isso aconteceu.
“Pegando carona” nos bons momentos, “pisei na bola”. Ao subir num pé de
tangerina, fui atacado por um enxame de maribondos. Como consequência, não
chupei tangerina, tive o corpo bastante arranhado e a roupa rasgada, pela ação
dos espinhos, ficando ainda, com a cara inchada, obrigando- me a permanecer de
“molho” por dois dias.
O pomar tinha uma grande quantidade de frutas, sem pragas e sem doenças, a
saber: ameixa, banana, fruta do conde, mamão, goiaba, romã, manga, e bem assim,
várias espécies de laranjas, entre as quais a turanja, bastante usada para
fazer doce em calda.
Existia no quintal um rego, canalizado, que trazia água para mover um
monjolo, destinado a pilar arroz, café e o milho – este ia para o tacho,
transformando-se em farinha. Do outro lado da cerca do quintal, podia-se
avistar um mandiocal e um extenso canavial.
Observava, com atenção, a maneira como minha mãe tratava as galinhas no
terreiro, jogando grãos de milho dourado no chão, que eram imediatamente
disputados pelas mesmas. Aproveitava, às vezes, essa ocasião, para pegar o
frango que iria para a panela, normalmente, preparado à moda do incomparável
“molho Toledo”.
Ela não se envergonhava de falar que, quando se casou não sabia fazer nem
café, porém com persistência, força de vontade e sem preconceitos, tornou-se
uma cozinheira de mão cheia, com a ajuda de uma “mãozinha” de minha avó
paterna.
Na ausência da senhorinha, nossa fiel
empregada ela mesmo servia o café da manhã, acompanhado de pãozinho quente e
broa de fubá, assados num forno de barro, construído do lado de fora da
cozinha .
É tão bom lembrar que, todas as manhãs bebia leite com espuma, em caneca de
alumínio, tirado na hora pelas mãos de meu pai, cuja vaca ele mesmo ordenhava.
Dizia que, ela poderia “esconder o leite”, caso outra pessoa fosse fazê-lo. No
entanto, devo salientar que, minha curiosidade maior era saber como as vacas
tinham a capacidade de reconhecer seus próprios bezerros, no meio de tantos?!
Quando surgia oportunidade, visitava o engenho, que moía a cana, gerando a
garapa para produzir açúcar mascavo, rapadura e aguardente.
Vale a pena lembrar que, admirava o açude de 400 metros de comprimento,
formado por inúmeras nascentes, em cuja desembocadura, tipo cachoeira, foi
colocado um parí, aonde podia se pegar várias espécies de peixes. O açude
fornecia, também, água suficiente para mover a engrenagem de um moinho, feito
com assentamento de duas mós de pedra, girando uma sobre a outra, destinado a
moer o milho para fazer farinha e quirera, consumidas na fazenda.
O Zóca, empregado da fazenda, conseguiu capturar um filhote de anta nas
proximidades do açude. O animal que foi chamado de “Chico” tornou-se uma
atração, cresceu bastante e durante uma bela noite arrebentou o cercado de
madeira, voltando a se juntar à sua manada.
Minha mãe vivia momentos de angústia e preocupação passando horas a fio de
vigília, à espera de meu pai, o qual demorava de duas à três semanas viajando
além do Rio Grande, nos confins do triângulo mineiro, para comprar bois magros,
pois não havia gado de cria em nossa fazenda.
Eles chegavam muito bravos e estressados, devido às longas caminhadas e ao
tugir do berrante; alguns escapavam do curral, indo diretamente para a quiçaça
dos pastos de capim gordura; só voltavam com a ajuda de bois sinuelos. Uma vez
engordados, eram abatidos no Frigorífico Anglo de Barretos, proporcionando a
principal fonte de renda da fazenda. Papai, cansado e barbudo, deixava-me
admirado ao vê-lo barbear-se com uma navalha!
Duplicando a preocupação de minha mãe, devo dizer que, ela permanecia
precavida, durante a noite, quando ouvia um barulho diferente no galinheiro,
pois, poderia ser a visita indesejável de um gambá faminto.
Como acontece em algumas fazendas, o silêncio era quebrado com o
cântico matinal “cocorocó” dos galos.
Nos demais períodos do dia, ouvia-se o mugido de uma vaca, o berro de um
bezerro desgarrado, o grunhido dos porcos no chiqueiro, o “tô-fraca ou tô-fraco”de
uma galinha d´angola,o pio de uma rolinha “fogo-apagou”, o barulho ensurdecedor
das maritacas, o canto de uma saracura “três potes”, o coaxar das rãs lá
no brejo, o rinchar dos cavalos, o berro agudo ou grave de um carneiro ou de um
cabrito, o gorjeio do sabiá “laranjeira” e o “au-au” dos latidos do
Tejo, nosso cão de vigia, assim como o “miau” do Bichano, nosso
felino. Podia-se, também, ver o vôo desordenado dos pássaros, afastando o
tucano “predador”dos seus ninhos, que poderiam conter ovos ou filhotes.
Além dos já mencionados, era impossível identificar todos os pássaros
existentes, seja pela cor tamanho ou canto. No entanto, conseguimos coletar um
chorrilho deles: bem-te-vi, pica-pau, pássaro preto, canarinho, anu branco e
preto, martim-pescador, sanhaço, beija-flor, coruja, birro, andorinha,
tico-tico e pomba juriti; sem esquecer a perdiz e a codorna, que não eram
caçadas, acredito, por falta de cachorro perdigueiro.
Bem distante, ouvia-se o som maravilhoso, produzido pelas grandes rodas de
um carro-de-boi, puxado por uma junta, ao girar sobre seu eixo, constituindo
motivo de orgulho para o carreiro, seu condutor.
Ficava de olho, ao escutar o cacarejar de uma galinha, como que, anunciando
“botei ovo”; lá ia eu buscá-lo. Depois de quebrá-lo e eliminar a clara, engolia
a gema ainda quentinha.
O nosso cardápio, consistia de arroz com feijão, carnes, peixes, ovos,
macarrão, queijos, mandioca e derivados de milho, dentre outros, e principalmente
etecetera, como verduras, legumes e salada de frutas, bem assim quitutes,
guloseimas e o delicioso doce de leite com ovos (ambrosia, alimento dos
deuses), receita da minha avó Maria Dias, uma mineira da “gema”, que conseguiu
criar e educar 11 filhos, inclusive o caçula, mesmo quando já estava viúva, ou
seja, o médico-cirurgião, eficiente e de muita personalidade, Dr. Ricardo Dias
de Toledo, meu padrinho que clinicou por mais de cinco décadas em Bebedouro, e
no qual me inspirei para o exercício profissional.
É curioso e verdadeiramente interessante lembrar de dois casos: “Banjo”, um
cavalo de frente aberta e muito manso, que mesmo não tendo sangue com “pedigree
austríaco”, aprendeu a passar em mata-burro, com perfeição e sem refugar,
tornando–se o campeão da estrada.
“Tejo” um cão policial de guarda, que não tinha nada de “vira ou tomba
lata”, acostumou-se a viajar no estribo de um “forde-de-bigode”, do tempo da
manivela. Caia com frequência nas curvas, fazendo com que meu pai parasse o
veículo para pegar o animal de estimação.
“Bichano”, nosso gato papa-rato, fofinho, sempre acariciando ou sendo
acariciado, que saia de casa quando queria se alimentar de ratos, que eram
encontrados no paiol e na tulha, seus “habitat”.
Não posso ignorar que, os móveis eram caipiras, o fogão caipira, o chuveiro
caipira, comia-se frango caipira, o cigarro de palha e a binga para acendê-lo
eram caipiras, o chapéu e as botinas caipiras, os homens bebiam “caipirinha”.
Quer mais? A linguagem cabocla e estropiada “nóis vai”, “despois”, “nóis via” e
o “mió”, era semi-caipira. Põe “caipirismo, nisso!”
Um dia ao voltar com o jornal, que ia buscar no ponto da “jardineira”,
chovia muito, e o Córrego da Mandioca, estava transbordando. Minha irmã Lúcia
que montava o cavalo alazão, firme no arreio e nos estribos, comigo na garupa,
arriscou atravessá-lo assim mesmo, acontecendo o inesperado: caí do
cavalo. Fui salvo graças à uma pinguela existente logo abaixo da queda na qual
pude me segurar para não ser arrastado pela força da correnteza. Ao chegar em
casa, recebemos de nosso pai, bastante zangado, um “pito”, pela “meninada”
praticada, como não poderia deixar de
ser.
Minha irmã Lúcia, sempre ela, matou uma cobra jararaca, de grande porte,
atrás da tulha, fazendo uso de uma vara curta, recebendo por isso enérgica
advertência de nossa mãe.
Conservo bem vivo, no arquivo de minhas lembranças, o acontecido com meu
irmão Paulo, acidentalmente vítima de uma farpa de aroeira que se alojou na
face externa de sua coxa direita. Dona Domingas, uma senhora de origem italiana
retirou o fragmento de madeira, sem anestesia e sob gritos de dor do
“paciente”. Sinto um calafrio nas pernas, ao lembrar-me do ocorrido, apesar da
minha vivência de cirurgião.
Meu irmão Walter, o “Vadico”, teve morte prematura ao ser atingido por um
tiro de revólver, quando visitava nosso tio José Buck de Almeida, então
presidente da Câmara Municipal de Votuporanga, que se envolvera numa
briga política provocando o acidente fatal, que nos causou profunda
consternação.
Maria Aparecida, a “Cida”, minha irmã caçula, era uma “xereta” imprevisível.
Ficava “embirrada” e “emburrada” quando lhe pedia para não me acompanhar pelas
andanças na fazenda. Nesses momentos, com certa frequência, “topava” com um
tatú-galinha, o qual, ao perceber minha presença, escondia-se rapidamente, no
seu “buraco”, cavado no chão, que depois de abandonado iria servir de moradia
para corujas ou ninho de cobras.
Ao caminhar, tinha medo de três coisas: cachorro louco, cobra e pisar em
prego ou, ainda, me machucar com arame farpado enferrujado, os quais poderiam
dar tétano, segundo meu pai.
Ele gostava muito de pescar, bem como, caçar pacas e capivaras. Nos dias de
lua-cheia subia numa goiabeira, esperando a chegada das pacas, que eram
atraídas pela ceva, de laranjas picadas, espalhada no chão. Podia, assim,
escolher aquela que iríamos comer no dia seguinte.
Durante uma caçada de capivara, um dos companheiros de meu pai, surpreso ao
ouvir o grito “ela está saindo aí”, assustou-se, disparando um tiro de revólver
no próprio pé. Acabou-se a caçada. Tal fato, um tanto engraçado e vexatório,
foi motivo de muitos comentários.
Jamais me esqueci de uma noite em que uma onça pegou uma leitoa no
mangueirão existente nos fundos da fazenda. Deixou todos amedrontados. Se era
preta, parda ou pintada, nenhum “joão-sem-medo”, se arriscou em descobrir, mas,
sabia-se, com certeza, ela veio das bandas do “sertãozinho” uma reserva, de
mata virgem.
Tentei fumar, escondendo o fumo no paiol ou num buraco de cerca; felizmente,
alguns dias foram suficientes para sentir que não iria me viciar. Por sua vez,
meu pai sempre teve o hábito de fumar seu cigarrinho de palha feito com fumo de
corda.
Para não beber remédio contra verminose, fuji da minha mãe, escondendo-me em
cima de um galho de mangueira, aonde permaneci algum tempo. “Dá para prever o
que aconteceu, depois do puxão de orelha e das chineladas. Tadinho de mim!…
Ela gostava de usar chá de folhas de jaracatiá, assim como, alho sativo,
para combater qualquer sintoma de doença; o alho era difícil de ser ingerido,
devido seu cheiro insuportável. Credo-em-cruz!
Aconteciam brigas banais entre irmãos e no instante de ira, eles me
chamavam de “santinho-do-pau-oco”, querendo com isso dizer, que eu era o “xodó”
de nossa mãe.
Procurava sempre atender as principais
recomendações do meu pai: não faltar à reza aos domingos, não esquecer a lição
da escola, não prender passarinhos em gaiola, não judiar dos animais, não laçar
cabritos, não nadar no córrego, não subir em árvores altas e não se queimar com
o melaço quente do engenho, que acostumava comer misturado com farinha de
mandioca, deixando-me, sempre, com a cara lambuzada.
O “Estadão” chegava com a “jardineira”, que fazia a linha Barretos –
Paulo de Faria. Lendo esse jornal e ouvindo emissoras de rádio de São Paulo,
tornei-me torcedor do Corinthians, paixão que persiste até hoje.
Ainda me lembro que, num dia de meu aniversário, ganhei de presente do meu
padrinho, tio Antônio, uma novilha que muito me agradou. Os aniversários eram
comemorados com parcimônia. Festas mesmo, só aconteciam nos dias de Santos Reis
e no período junino, em que se dançavam quadrilhas e catiras, sob aplausos;
nesse momento, eram oferecidas prendas pelo anfitrião, meu pai aos figurantes
constituídos, em grande número por casais da vizinhança, que usavam roupas
típicas. As fogueiras de São João nunca foram esquecidas.
A 10 km da sede da fazenda, numa região canavieira, ficava o distrito de
“Vila Toledo”, construído em terrenos doados por nossa família. Depois que foi
elevada a município e instalada a Usina Moema, passou a se chamar Orindiúva,
nome indígena significando “madeira dura”. Sua praça central tem o nome da
minha avó Maria Batistina Dias, e suas avenidas e ruas principais ainda
conservam os nomes dos Toledo, pioneiros que lá viveram.
Tinha muita admiração pelo senhor Pedro Lima, pessoa simpática e muito
agradável, que além de professor era alfaiate. Abriu a primeira escola na
fazenda. Foi com ele que aprendi o “a,e,i,o,u” e o “be-a-bá”, das
cartilhas de alfabetização. Fazia sempre questão de conversar comigo, dando
conselhos em vários assuntos, entre eles, como amar minha família e obedecer
suas ordens. Gostava, também, de falar sobre meu futuro.
Depois de cinco anos, no momento em que estávamos saindo de mudança para
Barretos, entregou-me uma carta de elogios, concluindo: “Vai com Deus e não se
esqueça de mim.” É claro que não me esqueci, porquanto é inesquecível.
Enfim, devo dizer que quase ia me esquecendo de registrar o fato de que
nunca houve, na fazenda, casos de furtos e roubos, assassinatos, afogamentos,
morte por “briga de foice no escuro”, entre funcionários, com BO livre disso ou
de outra natureza, a não ser do caçador de capivaras que, casualmente, deu um
tiro no próprio pé.
Se pudesse, teria feito uma excursão fotográfica da fazenda pois, textos
apenas falam, enquanto fotos mostrariam as imagens da sede, seu engenho, seu
gado, seu açude, seu pomar e tudo mais; porém, não foi possível fazê-lo, por
falta de máquina fotográfica. Bem que gostaria.
I am sorry for it…
Ao se encerrar as narrativas das “Memórias de Minha Infância Rural”,
espero que o leitor tenha apreciado e compartilhado comigo das atraentes
histórias de minha infância, que para mim, são muito gratificantes.
Despeço-me com a sensação de tudo ter terminado num “happy – end”. Thank you
very very much for your attention. Good-bye! I will meet you, again and
again, when you read the sto-ries line-up in my book. “ 50 anos de uma História
Inesquecivel”.