Pode parecer um paradoxo a grande diferença que existe entre o estereótipo da bruxa feia, velha, voando numa vassoura e raptando criancinhas, e a bruxa moderna, que estuda herbologia, astrologia, biologia, hermetismo, horticultura e cultua as forças da natureza e exercita plenamente o atributo feminino da intuição. Os grandes símbolos antigos da feitiçaria, usados hoje mais pelo simbolismo do que por um poder intrínseco, ainda podem ser encontrados no altar da bruxa: um caldeirão, uma adaga, uma taça, velas, flores e frutos, sal e rochas, mas com certeza não é uma mulher ignorante ou que produz o mal quem os usa.
Deturpar o grande culto à Deusa, os rituais, as sacerdotisas e os símbolos pagãos foi muito útil para que o cristianismo conseguisse se infiltrar em áreas célticas, e isto chegou ao ponto da perseguição na Idade Media, mas na verdade elas sempre existiram também em outras áreas do planeta e em outras culturas, em geral retratadas por uma deusa com três faces: a donzela, a mãe e a velha, ou como uma deusa gorda da fertilidade. Os antigos locais de culto pagão foram utilizados para assentar novas igrejas, mas dentro da nova religião se estabeleceu um culto à parte, o culto mariano, tendo a figura de Nossa Senhora assimilado à imagem da Deusa protetora, doadora da vida, da abundância e da fertilidade, geradora do salvador, e assim os novos fiéis celtas foram assimilando que ambas eram apenas faces de uma mesma força. Como a própria natureza, a Deusa pode às vezes ser cruel, em suas faces mitológicas como Lilith, Astarte, Hecate e outras, mas a essência da vida sempre inclui o potencial da morte nela, bem como não existe o bem em essência sem a existência do mal.
A consciência da força dos opostos e da necessidade de sua existência para um equilíbrio natural é um dos baluartes da cultura e crença Wicca (abreviatura de witchcraft, bruxaria), que apregoa que aquele que detém o conhecimento sempre terá de fazer escolhas, a ambiguidade é inerente ao homem e a todas as criaturas da natureza, ninguém é totalmente bom ou mal, e quanto mais conhecimento e domínio se atinge, maior a carga de responsabilidade. Depois de praticamente destruir a natureza e extinguir muitas espécies, o homem moderno está sendo forçado a olhar de novo para a natureza em reverência, e aprender a sintonizar novamente as forças originais para poder se integrar à natureza e trabalhar com os ciclos naturais a seu favor ao invés de enfrentá-los, e esta pode ter sido a maior motivação para o ressurgimento das crenças e cultura wicca e do xamanismo.
A Deusa – A Grande Mãe representa a força criadora da natureza, a Lua, sempre associada com o poder de geração da mulher, os ciclos lunares, a intuição, a noite, o inconsciente, a receptividade. As tradições desde a idade do Bronze representam a Deusa com três faces: a Lua Crescente, relacionada à virgem, juventude, cor branca e ao presente; a Lua Minguante, relacionada à maternidade, maturidade, passado e hereditariedade, e à cor vermelha; e a Lua Cheia, relacionada à velha sábia, a velhice, o futuro e a cor preta. Vários nomes lhe foram dados por culturas diversas: Ceridween, Diana, Hecate, Afrofite, Astarte, Arionrhod e outros
O Deus – Filho e consorte da Deusa, representa o princípio solar e a energia masculina, o pensamento lógico, saúde e realismo. Representado sempre com chifres de veado, é protetor de rebanhos e florestas, e um guerreiro.
A religião Wicca não tem organizações, é composta de membros que podem ser praticantes solitários ou que podem se reunir em grupos, sem vínculos financeiros, aceitando deuses nos quais reconhecem diferentes manifestações da Deusa, que em última instância é a Mãe Natureza. Mesmo em casos de diferentes formas de contato de novos praticantes com os ritos wicca, é de consenso geral que interiormente eles sempre foram Wicca, isto é, sempre sintonizaram com os ritmos da natureza e sentiram um apelo diferente em direção a um novo modo de vida, uma nova consciência.
O Ciclo dos Sabats representa a eterna estória de nascimento e morte do Deus, oriundo do poder de criação da Deusa, e nestas ocasiões se celebram os rituais mais importantes para os Wicca. Existe uma controvérsia a respeito dos Sabats principais, pois a simbologia foi codificada de acordo com as estações do ano no Hemisfério Norte, então deveria uma bruxa sul americana celebrar o Equinócio de Primavera a 21 de Setembro. As correntes contra e a favor de manter as datas do Hemisfério Norte operam sem problemas, e realizam seus rituais obtendo a mesma energização e harmonização, sem diferenças.








