IZABEL DE BRITO SILVA, residente em Porto Velho, é licenciada em Letras, e faz agora a sua estreia na Literatura, com este mavioso conto, que retrata de maneira fidedigna, nuances e costumes de nações indígenas da grande região amazônica.
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Beijão papis, estou indo pra escola. Vai com a proteção de monãg, diz o pai, que chacoalha a cabeça com uma expressão entre perplexo e risonho com a nova forma de ser chamado pela filha.
– Vou é com a proteção solar que as meninas me indicaram: veja como o meu rosto está mais claro e rosado, diz Pietra.
Mais uma vez o pai chacoalha a cabeça, aliás, é só o que ele tem feito desde que sua cunhatã começou com esses modismos. De vez em quando pergunta para si mesmo: Esta é minha Estrelinha ou uma personagem fictícia?
Com Tainá nos ombros, descia cautelosamente o barranco para mergulhar no lago na tarde quente de agosto. Era o mês do ano de que mais gostava, apesar de todos em sua aldeia demonstrarem preocupação com este período do ano por causa das iminentes ameaças de queimadas ao redor de suas casas. Eram tarde quentes, mas ventiladas, a água do lago costumasmente calma, agora balançava em ondas pequenas e adquiria uma característica de encantamento e o convidava a fluir em sua imaginação: quando era criança ouvia estórias de serpentes encantadas que viviam no lago, serpentes boas.
-Quando Tainá crescer mais um pouco vou contar – lhe as lendas de nosso povo, a lenda da serpente. O pai olha para o relógio do celular e se assusta ao perceber como o tempo havia passado:
– Vou usar o silêncio até o retorno de Pietra da aula para adiantar minha pesquisa de antropologia sobre os povos indígenas do Amazonas, fala para si mesmo. Quando Pietra entra em casa o silêncio sai sem pedir licença: entra estabanada, cada dia traz uma novidade da escola, algo que aprendeu, mas não nas aulas de química ou geografia, mas sim com Pati e Lú.
-Pai acredita que hoje eu aprendi a colocar status no meu perfil do aplicativo de mensagens instantâneas? Se eu pelo menos tivesse um celular, diz a garota ligando a tv no volume quarenta, porque enquanto prepara o sanduba com muito queijo e embutido, (embora o pai insista para que ela prepare uma tapioca) ela quer ouvir a nova música que a banda da novela adolescente que acompanha irá tocar.
A criançada da aldeia toda sentada em volta da fogueira e o avô de Tainá no centro se preparava para contar – lhes mais uma estória, mais uma lenda: as estórias que a cunhatã mais gostava era as de fantasmas. O local e a pituna formavam o cenário perfeito para embalar a curiosidade e a imaginação de Tainá. O avô não só contava, mas também gesticulava, fazia expressões para tentar imitar os fantasmas, os outros curumins se arredavam assustados, mas Tainá se aproximava cada vez mais do contador de estórias, fechava os olhos e se transportava para dentro do enredo, era então a índia valente que iria enfrentar os fantasmas e salvar a aldeia. Pietra desliga a televisão e percebe que sequer prestou atenção na novela, comera o lanche sem sentir o sabor, chacoalhou a cabeça como para espantar a lembrança, levantou – se e se refugiou em seu quarto.
Da sala o pai ouve os toques frenéticos e rápidos dos dedos de Pietra no teclado do computador, bate na porta e pergunta à filha qual é o propósito dela: quebrar as teclas do computador ou adquirir artrite nos dedos. Pietra grita que se o pai não restringisse o uso da internet ela não precisaria passar o tempo digitando textos aleatórios no computador.
– Mas minha filha já te expliquei que o uso exagerado da Internet não vai lhe trazer benefícios, você pode utilizar seu tempo para estudar, pesquisar, aprender a fazer artesanatos, argumenta o pai sem nenhum sucesso.
– Todas as minhas amigas possuem celulares, redes sociais, os pais delas não as aprisionam, sinto-me como um tucano preso em uma gaiola pequena, não é o senhor que sempre diz que os pássaros devem viver livres? Contra- ataca a menina, tentando mostrar ao pai que seu argumento é o mais forte.
-Você mais parece com uma arara-canga, isso sim, diz o pai bem – humorado, demonstrando que ainda está no controle.
Enquanto prepara a janta, o pai aproveita que a televisão está desligada e que a filha saíra do quarto e desligara o computador e ousa contar- lhe uma das tradições do povo Maraguá:
– Minha “Botinha”, sabe que hoje quando fui à sua escola para assinar a autorização para o seu passeio no rio Madeira, vi um grupo de meninos que pareciam ter em torno de onze ou doze anos de brincos e com cortes de cabelos exóticos, lembrei – me dos meninos da aldeia do meu rei-pai. Enquanto o pai tentava detalhar, Pietra parecia incrivelmente ouvir atentamente o relato do pai.
– Será que aqueles meninos estão sendo provados em um rito de passagem? Com quantos anos esses meninos são capazes de enfrentarem sozinhos os desafios da vida? Lá na beira do rio Abacaxis os meninos quando completam dez anos passam por três provações para testarem sua aptidão para a vida: A primeira é…
Fala sério, pai, interrompe a garota como se voltasse à tona de um mergulho em seu interior.
– Já sei toda essa estória, poderia escrevê – las de olhos fechados. O pai se assusta com o rompante de Pietra, logo agora que ele teve a súbita esperança de que a filha lhe ouvisse, se interessasse pelas tradições do povo Maraguá.
– Beijão, papis, vou correndo, senão a tia do corredor não me deixa assistir a primeira aula, fala esbaforida Pietra.
– Agora isso se tornou rotina, Estrelinha? E esse papis? Reclama o pai entre decepcionado e zangado.
– A tua benção, tuxawua-geral, a tua cunhatã precisa chegar a tempo na escola para a lição de anhagatú, diz Pietra séria e corada. O pai arregala os olhos e tenta recuperar o fôlego com a atitude de Pietra, enquanto ela bate o cadeado do portão.
Os lábios ficavam corados e lhes davam um aspecto saudável e nutrida quando passava urucum. Costumava ficar mirando sua imagem na água do pequeno igarapé no fundo de sua casa toda vez que se pintava: pensava consigo: pareço uma guerreira, a guerreira das histórias que o vô me conta. Ainda bem que esse batom mate quase roxo que a Lú me deu de presente nada parece com urucum, falou Pietra em voz alta, chamando a atenção de um grupo de pessoas que passavam na calçada ao seu lado.
“Hoje os garotos da escola vão perceber que minha pele está bem mais branca, porque evito no máximo tomar sol e me besunto de protetor solar e meus olhos menos fechados com os exercícios que estou fazendo copiados da net”, segue a caminho da escola, pensando. Pietra saiu de casa há poucos minutos antes de tocar o sinal, seguindo às orientações das “migas” Lú e Pati:
– “Miga”, entra na sala quando todos já estiverem entrado, assim os “boys” vão te notar, disse Lú. Logo no início da aula a professora de geografia fala sobre povos primitivos, diz que os povos indígenas estão perdendo seus terrenos, estão tendo suas culturas usurpadas e involuntariamente sofrendo processo de branqueamento. Pietra demonstra visível aborrecimento e solicita da professora licença para se retirar:
_ “Fessorinha” linda, posso ir ao banheiro? Acabamos de iniciar a aula, aluna, mantenha atenção às explicações sobre este assunto, que não é somente conteúdo da disciplina, mas também conteúdo para a vida, fala energicamente a professora.
Arrumou o cocar e conferiu as pinturas, que pena que suas roupas já não eram mais iguais as de seus primitivos! Correu até o fundo da casa para mirar – se no lago e conferir sua imagem. Viu-se e ficou terrivelmente feliz, apesar de estar acompanhando os pais até à cidade grande em busca de tratamento para a terrível doença que levou a sua mãe à morte. Ao chegar às margens do Abacaxis, enfureceu ao ver que algumas cunhatãs estavam vestidas de “brancas”, usavam batons e brincos, que definitivamente não eram de penas de pássaros e nem de sementes. Com trejeitos esnobes, olharam para Tainá.
Faz cinco anos que houve uma das maiores invasão e chacina de uma comunidade indígena, voltou Pietra a sí, quando a professora proferia essas palavras.
Esta noite Pietra teclava com mais força, até mesmo parecia estar frenética. Sentado na varanda da frente o pai ouvia o ruído do teclado e tomou – se de uma grande preocupação:
– O que faz minha Botinha teclar com essa força toda? Será que são os lanches gordurosos e os refrigerantes que a está deixando assim? Hoje ela me pareceu mais distante, mais irritada. Essas interrogações o pai fez para si sem respostas. Quanto mais teclava, mais o som do teclado se misturava a outros sons na memória de Pietra. Em alguns momentos pareceu-lhe ouvir uma sinfonia de pássaros e balancear de folhas de árvores.
Os domingos ganhavam tom vermelho – roxo e sabor de açaí com tucumã para Tainá. Esse era o dia que ela podia caminhar livremente pela aldeia, pois sua mãe a liberava dos afazeres domésticos. De pés no chão, sentia a energia da terra penetrar em seu corpo. Cada canto de pássaro, cada farfalhar das folhas das árvores para ela soava como magia. Atiçava – lhe o imaginário: um pássaro piscou os olhos para ela e depois, com a pontinha de uma asa a chamou para segui-lo, como correu naquele domingo! Corria, corria e o pássaro parecia rir porque ela não conseguia nunca pegá-lo. Mais adiante o pequeno igarapé refletia a imagem de uma estrelinha. A cunhatã não se deteve, entrou nas águas meio turvas e fresca na manhã de domingo e não viu o tempo passar brincando de pega- pega com a estrelinha. Guarasy já escondia sua carinha quando Tainá voltava para casa de seus passeios domingueiros.
Pietra surge repentinamente na sala em frente ao pai com uma maquiagem pesada, olhos fortemente maquiados de preto, estilo “gatinho”, batom de uma cor tão forte, que mal dava para distinguir a cor. Vestia uma blusa estampada ombro a ombro e calça jeans justíssima que dava para demonstrar as primeiras curvas de sua puberdade. Nos cabelos, pequenas mechas de cor violeta e vermelha. O pai a olha entre atônito e triste com toda essa descaracterização:
– onde foi que você encontrou todas essa indumentária, Estrelinha?
-Emprestei da Pati para irmos ao shopping, disse a adolescente esforçando–se para demonstrar naturalidade. Mas minha Botinha, desse jeito você está parecendo uma dessas adolescentes desses filmes americanos que você insiste em ver. O que você quer que eu vista? tanga e cocar? Resmungou Pietra fazendo uma expressão que mais parecia um dos emojis que ela tanto gostava de olhar nos celulares das amigas.
A calmaria do domingo penetrou em Pietra, que milagrosamente estava sentada na varando ao lado do pai vendo os poucos carros que passavam na rua.
-Sabe, Botinho, o povo maraguá é chamado povo das águas. A água para eles têm uma forte representação, as crianças aprendem a nadar cedo, parecem verdadeiros botinhos. É das águas que tiram parte de seus alimentos. Como também as estrelas… ousa continuar o pai, quando Pietra em um rompante lhe avisa;
– já deixo logo avisado que domingo que vem vou para o clube com a família da Lú e nadar é na piscina de ondas, pelo menos lá não tem poraquê, esnoba.
A escola de Pietra está um burburinho, alunos correm de um lado para o outro para deixar tudo organizado para as apresentações: cada turma ficou responsável por apresentar uma cultura, um acontecimento de relevância. Enquanto os pais procuram seus lugares e assinam a presença, o pai de Pietra aguarda a sua vez sob os olhos da filha:
– Boa tarde, professora, sou o pai da…. Pietra, interveio a menina rapidamente, ofegante e esbaforida. Chama o pai rapidamente sem lhe dar tempo de raciocinar sobre o ocorrido:
– Este é seu lugar, papis!
As cortinas do palco do auditório se abrem e a cada apresentação o público formado por pais fica mais orgulhoso de seus rebentos. Uma pausa nas apresentações para tomar fôlego, no retorno as cortinas levantam, surge uma índia em todo o seu esplendor: de tanga e cocar, rosto pintado, desenhos e penas nos braços e nas pernas, cabelos lisos e negros como a graúna. Os olhos dos espectadores brilham, mas os olhos de um espectador em especial marejam, um espectador mais atento poderia enxergar dentro deles o reflexo do grande rio Abacaxis e da densa floresta de Nova Olinda.
– Me chamo Tainá Wassary, sou da tribo maraguá, clã waiperia. Disse Pietra em um único fôlego.
Durante meses Pietra trabalhou misteriosamente em seu projeto. Reclusa em seu quarto registrava a memória de seu povo no computador. Registrava a sua memória, que a insistência da vida da quase metrópole onde morava há quase cinco anos insistia em apagar.
– Este sentado na terceira cadeira da segunda fila é Yaguaré Wassary, herdeiro do tuxawa- geral da aldeia em Olinda do norte. Este índio é o meu pai, falou com a voz embargada Tainá.
Após a morte da mãe, Yaguaré decidiu morar na capital com Tainá. Antropólogo de formação almejava que a sua Botinha também pudesse conhecer outras culturas, sem, no entanto, repudiar a sua. Via dia a dia sua pequena Estrelinha em processo de antropofagia: chegou a temer que a filha negasse para sempre sua origem.
– Somos o povo das águas. Somos descendentes das estrelas. Onde passamos regamos e iluminamos o caminho, concluiu a apresentação, Pietra.
(Izabel de Brito Silva – Porto Velho, RO)








