A CRÔNICA DA SAUDADE – Luiz Fernando Montini “Gegê”
Um belo dia você está vagando no éter do inconsciente coletivo, você é apenas uma ideia no coração de alguém. Um belo dia esse anjo chamado mãe resolve te dar, corpo vida e amor, e sendo não mais apenas fruto desse desejo, mas sim sua corporificação nos nascemos, sem dentes sem palavras, diferente de outros mamíferos que saem andando do parto, se não nos cuidarem, der de mamar, proverem calor, morremos em instantes. Só que essa necessidade de atenção tem um preço, pois essa pessoa nos cuida e ainda tem que prover os recursos materiais para que essa vida continue. Mãe nunca me faltou abraço, um beijo. Sei que houve algumas expectativas que eu possuía que não foram atendidas, mas que eram fruto apenas da minha projeção, e não da realidade. Tenho certeza absoluta que em mil Vidas, pelo caráter que você tinha, em cada uma delas você faria o melhor que pudesse. A dor da despedida corta demais o peito, mas sabíamos que esse momento chegaria. Você foi como rapadura: doce mas não era mole! Dentre os mistérios do universo eu quero só perguntar para Deus, Alah, Buda, quem quer que seja, que possa responder minha pergunta: porque passar pelo Alzeimer?
A resposta ouso me atrever: porque não fizemos terapia com psicólogo o suficiente. Todos nós. E quando não fazemos o tabuleiro de xadrez da vida nos dá um Chequemate. Será? Essa hipótese não me convenceu. Então…. Será que isso te aconteceu porque é da vontade de Deus? Sinceramente não acredito num velho barbudo sentado num trono esperando gritarmos o nome dele sob pena de castigo, egocêntrico e preocupado com elogios e concitações constantes. Não. Também descarto a segunda hipótese.
Seria então porque você teve algum trauma na infância que desejava esconder de si mesma, e que por isso teria se permitido o alzheimer como modo de esquecer isso? Também não é possível dizer, são apenas hipóteses. O que há na nossa vida e que somos viciados em respostas e temos a ideia frívola é fútil de que somos eternos. Minha mãe amou demais, xingou pra caramba, era difícil sim, porque era até espontânea demais, esse é um lado que os familiares mais próximos sentiram. O que meus irmãos, eu e meu pai sim, porque mesmo separado foi homem de valor auxiliando em tudo que podia, fizemos, não tá escrito, e nem que eu escrevesse aqui, seria capaz de conseguir expressar! Culpa de quem o alzheimer? Não tem culpado. Não tem racionalização, não tem nada. E a vida sendo a vida. O que aprendi com isso é buscar não guardar rancores, ressentimentos, isso porque esses sentimentos acumulados nos fazem muito mal, mas aí você precisa ganhar na loteria da genética para junto a isso ser o felizardo de um alzeimer. Então não tem resposta, a resposta consiste em fazer as perguntas e pensar/ e /ou “penar”sobre elas. Apenas isso. E se não quiser sofrer, apenas não pense, ou escreva sobre ela, ou nenhuma das hipóteses anteriores, cada um te seu jeito. Dona neta dos abraços, dos beijos, dos xingamentos: “muleque cabicudo eu te amo.” Ah ambivalência (famoso te amo te odeio) é constitutiva de afetos. Talvez dos melhores que possamos sentir. Mãe você lutou, viveu, amou, riu muito, nas suas palavras: ri muito merrrrmo, sofreu no final, mas teve aplauso de pé. Você venceu e deixou todos nós juntando os pedaços nesse momento de saudade. Dizem que isso passa, ainda não sei. O tempo dirá.
Fato é que a melhor coisa que você fez foi me ensinar o amor pela leitura desde novo. Você foi a melhor professora não só na escola. Você me fez ler pequeno príncipe com 5 anos, e nas suas expressões sempre cômicas: saint exuperry desculpe aí roubar a frase: mas “tu és eternamente responsável por aquilo que cativas”, é isso dona neta você cativou o amor pela família, pelo conhecimento, pela caridade, pelos amigos. Meu Deus quanta gente essa mulher ajudou! quanta bondade naquele coração! Que exemplo pra nós. Quantos abraços nós ganhamos ontem de conforto, isso não vem do nada. Te amo muito dona Neta e te amarei eternamente. Se é que isso é um pensamento válido e não só fruto do nosso desalento diante da não aceitação do fim da vida, mas: descanse em paz bicho! E Deus nossa senhora Alah Buda, quem quer que esteja aí: receba bem essa mulher porque do contrário ela vai abrir a porta, com uma rapadura na mão, vai te xingar, te abraçar, te deixar despedaçado de saudade de modo que a única coisa que você vai pretender é uma eternidade de amor. Não pela religião, ou pela fé, mas pelo amor na sua mais pura e Lídia concepção de um anjo chamado Francisca do Vale Montini.








