Agora, essa terceira aula se dedica à descrição dos pentecostalismos no Brasil, seus atores e os movimentos religiosos divididos classicamente em três ondas pentecostais no Brasil.
Agora, quando se escreve sobre os pentecostalismos no Brasil, enxergamos uma série de movimentos e acontecimentos, ao mesmo tempo, trata-se de fenômeno dinâmico ligado a um pentecostalismo global e multifacetado. O pentecostalismo moderno tem seu marco inicial na Rua Azusa, teve eclosões já no final de século XIX e início do século XX, em várias partes do mundo, algumas delas sem qualquer vínculo com este movimento inicial, como indica Gedeon Alencar (2013).
A figura importante do fenômeno da Azusa foi William J. Seymour, quando em 1906 foi convidado pela Igreja do Nazareno, em Los Angeles, para ser pastor auxiliar. Isso ocorreu depois que uma mulher, membro desta igreja, ter tido contato com a escola onde Seymour estudava com Parham. A pregação não agradou a comunidade anfitriã que o proibiu de frequentar a igreja, esse cerceamento foi o estopim para o surgimento do movimento conhecido como Rua Azusa (GUTIERREZ & CAMPOS, 1996). Durante três dias e três noites pregou em casa de amigos, atraindo muitas pessoas, falando sobre os Dons do Espírito, a importância do Espírito Santo a partir da leitura do capítulo de Atos dos Apóstolos 2.
Agora, é a partir da década de 1910, que se inicia a chegada de um conjunto de missionários preocupados o agendamento religioso mais “espiritualista”, nesse caso com a propagação dos “dons do Espírito”, na verdade, com a prática da glossolalia, do “falar em línguas”. O primeiro momento foi estruturado pelo sociólogo da religião Paul Freston no seu célebre trabalho de doutorado de 1993, “Os protestantes e a política no Brasil: da constituinte ao Impeachment”, quando escreve:
“A primeira ‘onda’ é da década de 1910, com a chegada da Congregação Cristã (1910) e da Assembleia de Deus (1911). Estas duas igrejas têm o campo para si durante 40 anos, pois suas rivais são inexpressivas. A Congregação, após seu grande êxito inicial, permanece mais acanhada, mas a AD se expande geograficamente como igreja protestante nacional por excelência, firmando presença nos pontos de saída do fluxo migratório” (FRESTON, 1993, p.66)
O trabalho do Freston é fundamental para pensar os diferentes momentos de chegada dos fluxos missionários pentecostais no Brasil, até sua inserção política mais direta na constituinte de 1988. Seu material se preocupa mais em certos momentos nas descrições religiosas dos processos pentecostais. A Congregação Cristã no Brasil foi formada por uma ação missionária sem sustento de instituição do exterior, seu missionário organizador foi Luís Francescon, italiano emigrado para os Estados Unidos, que nunca teve ajuda econômica e nem sofreu influências de institutos bíblicos, boards missionários ou literatura de qualquer espécie. Francescon também não possui educação teológica formal e para seu corpo sacerdotal as condições acadêmicas não são relevantes mas a trajetória de fé (MONTEIRO, 2010).
Francescon, conhecido como Irmão Francescon, foi marcado pelos “movimentos de santidade” comuns nos EUA no início do século XX, e seu primeiro batismo ocorreu na cidade de Santo Antônio de Platina, com o italiano Felício Mascaro (MONTEIRO, 2010). Sua atividade ficou relacionada às comunidades de imigrantes de língua italiana, logo, se concentrou fortemente entre os italianos migrados do interior e da região do Brás no centro de São Paulo. Ele não morou no Brasil, contudo, entre 1912 e 1930 veio dos EUA ao todo 12 vezes ao Brasil, ajudando a estruturas a igreja e ajudou na propagação da mensagem de “salvação e de prática de fé, amor para vocação de Deus” (MONTEIRO, 2010, p.161).
Outra denominação pentecostal formada na década de 1910, é a Igreja Evangélica Assembleia de Deus, que junto a Congregação Cristã no Brasil fazem parte da primeira onda dos pentecostalismos no Brasil segundo Freston (1993). Agora, se utiliza o termo Assembleias de Deus, no plural, pois é uma estrutura denominacional comunitária, logo, que vem sofrendo inúmeras fragmentações, e sendo conectada seguidamente pela via dos diversos ministérios, que se tornaram independentes das antigas convenções. O nome Assembleia de Deus também é um importado dos Estados Unidos e oficializado a partir de 1918, numa tradução de “Assemblies of God”, com a ideia da pluralidade já nos nomes (VILHENA, 2016).
Então, de 1911 até 1918, o movimento pentecostal iniciado por Gunnar Vingren e Daniel Berg ganhou o nome de “Missão da Fé Apostólica”, que é o nome análogo ao do movimento pentecostal liderado por William Seymour, líder do grupo da Rua Azusa, 312, em Los Angeles, Califórnia. É somente 7 anos depois que o nome é substituído por “Assembleias de Deus”, que foi modificado por conta da sugestão de um casal de missionários suecos então recém-chegados, Otto e Adina Nelson, procedentes dos Estados Unidos, que reconheciam o nome Assembleias de Deus (VILHENA, 2016).
Como nas igrejas pentecostais, o “Espírito Santo é reconhecido como o agente que proporciona até mesmo a mobilização das mulheres na Igreja, em uma época notadamente marcada por machismo e marginalização feminina, como na década de 1930”. Sobre os inícios das Assembleias de Deus, é importante que se destaque um elemento, ambos os missionários fundadores, pouco se sabe sobre seus posicionamentos mais diretos. Gunnar Vingren e Daniel Berg pouco escreveram sobre as atividades, sermões, prédicas ou cartas (VILHENA, 2016).
Assim, sobre o começo das Assembleias de Deus é interessante que se perceba que a legitimidade da participação da mulher na Igreja é garantida pela ação do Espírito. Portanto, desde os inícios da chegada ao Brasil, no ano de 1917, uma figura feminina é interessante de ser enfatizada, foi a Frida Maria Strandberg Vingren, esposa de Gunnar Vingren, uma mobilizadora, prol igualdade de gênero. Desde sua chegada da Igreja Filadélfia para o Brasil, estranhando que as mulheres só trabalhavam em casa com três meses de vida no país. A pesquisadora como Valeria Cristina Vilhena (2016, p.43) escreve descreve a ação religiosa da Frida como “ousada, de protagonismo e luta pelo reconhecimento feminino”, pois enfrentou ao longo de sua trajetória como mulher, se tornando pastora, editora e escritora.
Agora, a segunda onda pentecostal, se inicia na década de 50, na cidade de São Paulo, com os ex-atores Harold Williams e Raymond Boatright, que eram vinculados a Church of The Foursquare Gospel, chegaram com uma mensagem de “cura divina” além do elemento pentecostal. Falavam que “Deus, dos patriarcas, quer se mostrar na terra a partir dos sinais e prodígios, para que todos possam verificar e ficarem maravilhados com o poder dele” (FRESTON, 1993, p.86). Assim, com forte apelo nas curas, dos milagres e prodígios às mensagens se difundiram pelos rádios, trazendo então a lógica do evangelismo de massa.
Ao mesmo tempo, pelas ondas do rádio se começa a ter uma confecção das mensagens pentecostais de forma mais midiática, com um tempo mais restrito e com jargões e bordões. Ambos missionários estavam a frente da Cruzada Nacional De Evangelização, movimento que centralizou multidões de pessoas em estádios, ginásios de esportes e teatros, com um discurso direto, provocou a fragmentação denominacional no pentecostalismo brasileiro, que até no momento só se contava com as igrejas pentecostais de primeira onda (FRESTON, 1993).
As igrejas construídas pelos missionários da cura divina foram: Igreja do Evangelho Quadrangular em 1952 em São Paulo, Igreja Evangélica Pentecostal o Brasil Para Cristo, em 1955 em São Paulo, Igreja Evangélica Deus é Amor, em 1962 em São Paulo, e a Igreja Evangélica Casa de Benção, em 1964, em Belo Horizontes, dentre outras Igrejas de menor porte como escreve Ricardo Mariano (2005, p. 31). A Igreja do Evangelho Quadrangular foi fundada nos EUA por Aimee McPherson que usou lonas para falar por todo EUA, numa roupagem moderna. Ela se casou por 2 vezes, sendo que na segunda virou pregadora e começou a rodar os EUA.
Desde 1922 conseguiu um programa de rádio, e em 1924 adquiriu sua própria emissora, agora, o detalhe é que Aimeé por vezes pregava entre as igrejas da Ku Klux Klan (FRESTON, 1993, p.88). No Brasil, seu fundador é Harold Willians em São Paulo, em 1951. A fazia opção de trabalhos evangelísticos pelos centros urbanos com uma roupagem renovada, o que atraiu muitos protestantes tradicionais. Ela fica mais reservada na região Sul e Sudeste do Brasil e é sobretudo dirigida por mulheres (FRESTON, 1993).
A Igreja Evangélica Pentecostal o Brasil Para Cristo, está diretamente ligada à memória do missionário Manoel de Mello, seu fundador. Ele que saiu da Assembleia de Deus, para integrar a Cruzada Nacional de Evangelização, e em 1955 (FRESTON, 1993), se reuniu com amigos e irmãos falando que teve uma visão: “tive uma visão espiritual na qual o Senhor Jesus me apareceu e me deu ordens para começar, no Brasil, um movimento de reavivamento espiritual, evangelização e cura divina, e o Senhor Jesus mesmo deu-me o nome: O Brasil Para Cristo” (FRESTON, 1993, p.90).
Assim, a igreja se organizou e Mello iniciou seu projeto paralelo de evangelismo através da rádio, na rádio Piratininga de São Paulo, conquistando um número expressivo de ouvintes. Seu programa mais famoso foi o “A Voz do Brasil para Cristo”, que passou a ser veiculado depois pela Rádio Tupi (FRESTON, 1993). Outra igreja foi Igreja Evangélica Deus é Amor ligada a figura do missionário David Martins Miranda, que recebeu de Deus por meio do Espírito Santo, que “nessa igreja iria faz crescer e Deus ia se mostrar de muitas formas trazendo curas, milagres, visões e maravilhas” (FRESTON, 1993, p.94). A igreja Deus é Amor tem um apelo muito próximo desde o público até a linguagem com o que a Igreja Universal do Reino de Deus irá desenvolver: com apelos aos mais pobres e baseada nas curas divinas.
Na década de 70 que se instaura a terceira onda do pentecostalismo, dando continuidades e descontinuidades com as ondas anteriores. As igrejas que seguem essa onda são ligadas que mais se destacam com uma conexão midiática e de apelo financeiro destacados. A terceira onda do pentecostalismo se baseia tanto com a ideia dos pentecostes (primeira onda) como da cura divina (segunda onda), sendo que apresenta um outro elemento teológico distinto: a chamada teologia da prosperidade (FRESTON, 1993). Assim, as igrejas construídas pelos missionários, pastores da teologia da prosperidade são : Igreja Universal do Reino de Deus (1977, no Rio de Janeiro), Igreja Internacional da Graça de Deus (1980, em São Paulo), Igreja Mundial do Poder de Deus (1986, em São Paulo) e Igreja Apostólica Renascer em Cristo (1977, em São Paulo), entre outras.
Não se pode tratar de terceira onda do pentecostalismo sem destacar a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), e seu líder o bispo Edir Macedo. A história da IURD se confunde com a vida do seu líder que aos 33 anos larga o trabalho, para junto de RR Soares (seu cunhado) inaugurarem a igreja. Ambos eram membros da Igreja Nova Vida, que era pioneira no pentecostalismo voltado para a classe média. Eles iniciam o serviço religioso numa funerária na Abolição, chamada de “Igreja da Bênção” logo após RR Soares e ele tem um problema e Soares funda sua própria denominação. Já a IURD com uma estrutura densa organizada, Macedo parte para os EUA para lá viver, ficou por 4 anos fora (1986 à 1989), fazendo um disciplinado com as lideranças ultra-conservadoras da Maioria Moral, ligada ao partido Republicano EUA (FRESTON, 1993).
No seu retorno transferiu a sede da IURD do Rio de Janeiro para São Paulo. E, passou a incentivar mais ainda o apelo político interno na igreja, tal como aprendeu com as lideranças americanas. A partir disso, se pode compreender o apelo político da IURD, até na construção de partidos políticos, como mais recentemente o Republicanos. Historicamente a IURD tem um grande incentivo às mídias como, se tem rádios e até um complexo televisivo como o Sistema Record de Comunicações (MARIANO, 2005). E, a IURD se especializou ao longo do tempo em fazer uso de exorcismos em massa como ocorreu já no Maracanã, e tem um calendário litúrgico semanal que dialogo-responde com as diferentes tradições religiosas do Brasil.
Paul Freston (1993) destaca analisando as atividades da IURD “que no pentecostalismo tradicional os demônios são mantidos mais a distância que enfrentados, mas na IURD eles são buscados e enfrentados” (p.81). E, Edir Macedo indica que “a pobreza é falta de fé ou de ignorância, todo fiel que tiver uma vida santa digna entende que a doação financeira para Deus é parte do investimento que se faz no divino” (MARIANO, 2005, p.101). Nesse caso, Paul Freston indica que na IURD “cada fiel tem o direito de ter benção na terra, ter condições materiais de sobreviver à vida e ter abundância” (1993, p.61). Assim, é importante a sinalização de que na IURD é uma “religião de resultados”, ou então o “cristianismo está ligado a senha dos cofres” (MARIANO, 2005, p.102).
Referência Bibliográfica
ALENCAR, Gedeon. Matriz Pentecostal Brasileira. Assembleias de Deus – 1911-2011. 1. ed. Rio de Janeiro: Novos Diálogos, 2013. v. 1. 383p .
GUTIERREZ, Benjamin; CAMPOS, Leonildo Silveira. Na força do Espírito: Os pentecostais na América Latina – um desafio às igrejas históricas, São Paulo: Pendão Real e AIPRAL, 1996.
MARIANO, Ricardo. Neopentecostalismo: Os pentecostais estão mudando, São Paulo, Loyola, 1999.
MENDONÇA, Antônio G. O celeste porvir: a inserção do protestantismo no Brasil. 3. ed. São Paulo: Edusp, 2008.
MONTEIRO, Y. N. Congregação Cristã do Brasil: da fundação ao centenário – a trajetória de uma igreja brasileira. Estudos de Religião, v.24, n.39, 2010, p.122-163.
VILHENA, Valéria C. A insubordinação das Assembleias de Deus no Brasil: uma análise de gênero sobre a trajetória de vida da missionária Frida Maria Strandberg. Religare, v.13, n.1, 2016, p.85-118.







