A Notoriedade
na sociedade, a conquista da fama, o privilégio do destaque, a notoriedade. Façanhas
de todo porte são apresentadas no cenário humano, de modo que chamem a atenção
para as suas personagens. Quando não se dá a conquista através dos lances de
enobrecimento e elevação, derrapa-se no escândalo, na vulgaridade, desde que o
empenho produza os frutos da popularidade.Criou-se mesmo um brocardo que afirma a necessidade de notoriedade, quando se
propõe: “Que falem mal de mim, mas, que falem…” A ânsia por
notoriedade permite que os caracteres mais frágeis, a fim de alcançá-la,
transitem pelos caminhos escabrosos, vivam em estado de promiscuidade moral,
desde que esse contributo venal, tal concessão lamentável sirva para lograr a
meta.
Passada, no entanto, a excitação da notoriedade, o cansaço se instala no
indivíduo, levando-o ao tédio, após vividas as sensações mais fortes, que
exigem outras novas e desgastantes, sempre efêmeras. Por outro lado, há a
notoriedade natural, alcançada pelo trabalho, mediante o sacrifício, como
resultado do altruísmo e da sabedoria.
As artes e as ciências, as religiões e as filosofias, a ética e todos os
empreendimentos humanos relevantes, ergueram, à notoriedade homens e mulheres
que passaram a ser símbolos dignos de seguidos pelas demais criaturas. A sua
trajetória, todavia, deu-se mediante pesadas renúncias e eloquentes
sacrifícios. Alguns desses indivíduos notáveis teriam gostado do anonimato, da
vida pacata ou ativa, sem as exigências que a glória terrena impõe, sem a perda
de tempo que a notoriedade propicia.
Quase todos aqueles que cercam os vitoriosos tendem a asfixiá-los, olvidando-se
que esses são seres humanos normais e necessitam respirar, descer do pódio,
viver. Exigem-lhes a mesma postura, o habitual e constante momento de relevo, a
notoriedade refletida sempre no comportamento de todas as horas. Negam-lhes o
direito de viver simplesmente.
O grande físico Albert Einstein, amargurado com o uso que foi feito do átomo,
após o lançamento das bombas nucleares sobre Hiroshima e Nagasaki, escreveu que
desejava ter sido um bombeiro-encanador anônimo, a, mesmo que
inconscientemente, ter contribuído para o êxito do Projeto Manhattan, que
culminaria na destruição de milhares de vidas e daquelas duas cidades.
Pasteur escondia-se dos admiradores, a fim de poder prosseguir nas suas
pesquisas. Madame Curie sofreu tanto assédio dos fãs que, não suportando mais,
pediu-lhes que a deixassem trabalhar. Heifetz, o insigne violinista, quando
alguém lhe disse que daria a vida para tocar como ele, redarguiu com calma: –
Foi exatamente isto que eu fiz: dei toda a minha vida à arte do violino! O Cura
d’Ars via-se constrangido a repreender os insensatos que o queriam adorar em
vida.
A galeria é vasta e expressiva, daqueles que teriam preferido o serviço
anônimo, de modo a passarem despercebidos. Mesmo Jesus, sempre que operava os
admiráveis fenômenos de socorro à multidão, fugia-lhe do convívio, a fim de
ficar a sós com Deus!
A notoriedade, pelo que tem de belo e grandioso, também se expressa como grave
e de alta responsabilidade. Favorece o orgulho e fomenta a presunção dos
fracos, que derrapam na prosápia e no culto da personalidade, assim
entorpecendo os sentimentos nobres e turbando a claridade da consciência do bem
e do dever.
Nem positiva nem negativa a notoriedade, para quem deseja, realmente, servir e
encontrar a paz. O silêncio, a discrição e a perseverança no ideal, na ação digna,
constituem o aval de segurança para o êxito e o melhor antídoto para os venenos
perigosos que destroem as criaturas humanas.
Se te vês convidado a uma situação de fama e notoriedade, resguarda-te na prece
e vigia as nascentes do coração, a fim de permaneceres inatingido pelo mal que
dorme em ti próprio.







