A história dos métodos de interpretação bíblica se confunde com a história das interpretações e das literaturas em diversos povos. A Bíblia não surge como um livro nem como literatura sagrada, por isso seus textos receberam acrescimento e correções até sua canonização. Apenas no ano 80 da era Cristã que os textos do Antigo Testamento foram canonizados e aproximadamente no final do século terceiro que o Novo Testamento foi canonizado. No primeiro momento não havia concepção clara da história como ciência ou estrutura. As primeiras interpretações bíblicas podem ser encontradas na própria Bíblia, quando Paulo e outros autores do Novo Testamento fazem interpretações de textos do Antigo Testamento. Mesmo assim, o cânon não foi restritivo quanto à interpretação. Tanto no Antigo como na formação do Novo Testamento, até próximo da reforma protestante, os métodos seguiam princípios alegóricos e pastorais orientados pelas teologias (visões de mundo a partir do sagrado). De forma geral, era a necessidade que dirigia a interpretação que poderia ser alterada de acordo com as opiniões e posições particulares de cada pessoa.
Embora as interpretações sejam díspares, o método pastoral e alegórico não deve ser visto como algo ruim. Os evangelistas usaram esse método, o que justifica as diferenças nas interpretações de cada um sobre a narrativa da história de Jesus. A interpretação pastoral das comunidades de João e Lucas reconhecem um papel importante das mulheres na formação do cristianismo. Já na comunidade de Mateus, isso não acontece, pois tinham culturas, problemas e necessidades diferentes. Assim, a interpretação pastoral segue a necessidade da comunidade. Veja as diferenças entre Paulo e Jesus, por exemplo. Em Paulo há disputas sobre a obrigatoriedade da circuncisão, principal problema de suas comunidades, já nos evangelhos nem se fala disso. Por outro lado, a guarda do sábado é uma das principais crises dos evangelhos, enquanto que Paulo nem se quer trata do assunto. São diferenças locais e recebem tratamento pastoral local. É a postura pastoral que decide as ênfases da leitura e interpretação bíblica. Ambos os textos defendem a graça. Paulo afronta a obrigatoriedade da circuncisão enquanto os evangelhos, a imposição do sábado. Outro exemplo é Mateus. Neste evangelho o Anjo da anunciação fala primeiro com José enquanto em Lucas, fala com Maria. Essa é outra diferença justificada pelas necessidades culturais de cada comunidade. Em Mateus, uma comunidade com fortes traços judaicos, a mulher possui um lugar submisso aos homens, por isso na narrativa o anjo fala com José e não com Maria. Em Lucas, uma comunidade popular provavelmente da Ásia Menor, o papel das mulheres é diferente e precisa ser enfatizado. Para os evangelistas o importante é que Deus falou, como e com quem é decidido culturalmente. Diante disso você até poderia perguntar: – O que “realmente” aconteceu? Quem está certo? O anjo falou com José ou com Maria? Podemos apenas sugerir hipóteses mas, da perspectiva pastoral, ambos estão certos. As duas narrativas, assim como muitas outras, estão preocupadas com a realidade de suas comunidades. Esse é o caso das cartas de Romanos e Gálatas. A carta aos Romanos defende os judeus e disciplina os gentios; a carta aos Gálatas defende os gentios e disciplina os judeus. O que aconteceria se as cartas fossem trocadas? A comunidade dos gálatas, que estava oprimindo os gentios (GL 2), ao ler Romanos, estaria autorizada a continuar a perseguição, assim como a comunidade de Roma, que estava perseguindo os judeus (Rm 9-11), entenderia que Paulo está apoiando sua perseguição. É preciso entender que cada texto tem seu contexto e objetivos particulares. Paulo não é dúbio, apenas estava cuidando das comunidades, interpretando o texto de forma que houvesse crescimento e fortalecimento do povo, ainda que para isso tivesse que fazer releituras “encaixando” os fatos de acordo com as necessidades culturais de cada comunidade.
Mas isso não é exatamente o que acontece hoje? Essa perspectiva pastoral ainda é praticada nas igrejas. Em geral há muita crítica à tendências nas pregações, mas fora o método de pregação expositiva que prega a Bíblia em ordem de Gênesis a Apocalipse, as mensagens avulsas, comuns a todas as denominações cristãs, são cheias de tendenciosidade e intencionalidade. Essa é a perspectiva pastoral. Ela não está errada, pois parte da experiência pastoral com a comunidade; enfim, entende-se que o líder deveria saber o que é melhor para cada momento (o mesmo princípio das comunidades bíblicas). O problema é a utilização da tendenciosidade para tirar vantagem da comunidade, o que infelizmente continua acontecendo desde a formação do cristianismo.
Na história da Igreja, a ausência de um método contribuiu para diversos problemas. Logo no princípio da história cristã, o Cânon surgiu para conter a diversidade de textos; era uma primeira forma de controle. As teologias surgiram em seguida para defender o cristianismo dos diversos ataques ideológicos de filósofos contratados para ridicularizar os cristãos. Aos poucos, todas as interpretações passaram a ser mediadas por autoridades da igreja (pais da igreja) aliados da interpretação doutrinária, a fim de controlar os excessos. Nesse processo, as escolas mais históricas e sociais foram abandonadas e esse período de interpretação continuou até a renascença, movimento em que houve um reencontro dos textos gregos e latinos, que também promoveu uma renovação nos métodos de interpretação. A reforma protestante, influenciada pelo humanismo, desenvolveu-se em várias linhas. Na interpretação, ela surge a partir das traduções para o alemão e para o inglês, que influenciaram as interpretações. A partir desse trabalho de tradução, surgiram as críticas históricas e as literárias. Com a reforma, iniciou um método histórico-gramatical retomando elementos antigos e implantando os novos. Para a época, esse método era uma heresia pois desconsiderava a autoridade dos pais da igreja. Esse foi o principal método desenvolvido pelas igrejas protestantes, reformadas e evangélicas, para a interpretação da Bíblia Cristã. Essa proposta está fundamentada numa interpretação histórica e gramatical considerando a teologia clássica, formada na patrística e na história da igreja como fundamentos para a interpretação. Todavia, é preciso ressaltar que os métodos histórico e gramatical que estavam a serviço da teologia, eram formas de fundamentar as doutrinas teológicas.
Paralelo ao desenvolvimento da interpretação bíblica, segue o desenvolvimento das escolas críticas históricas e linguísticas, somando-se a estas as críticas sociológicas e, na atualidade, as críticas contextuais. O que são estas escolas críticas e qual sua relevância para a interpretação bíblica? Essas críticas assumem a desconfiança na estrutura eclesiástica (devido aos abusos da igreja) e passam a questionar toda a realidade até então mediada pelos dogmas da igreja. Partem da perspectiva que muitas afirmações não eram fundamentadas cientificamente, mas eram tradições. Sua contribuição é muito relevante para o desenvolvimento das ciências e das universidades. Na teologia, no entanto, surgiram linhas de interpretação a partir dessas críticas e o método conhecido como histórico-crítico é um dos principais. Os desenvolvimentos desse método surgem a partir do século XVIII, iniciando um distanciamento entre a academia (não interessados em defender dogmas religiosos) e as interpretações confessionais (interessadas em defender suas doutrinas).
O método histórico-crítico tornou-se o principal método de pesquisa acadêmica, tendo a seu favor o compromisso com as escolas críticas e com a objetividade científica e não com as estruturas religiosas. A demérito pode-se contar o distanciamento da prática religiosa nas comunidades cristãs, dificultando sua compreensão. O desenvolvimento das críticas surge para proteger a humanidade de possíveis excessos e manipulações. As principais pesquisas bíblicas, de maior profundidade, foram e são desenvolvidas segundo o método histórico-crítico. Não é um método para fortalecimento da fé ou para crescimento espiritual, não é um método para apresentação nas comunidades cristãs. É um método amplo, e cansativo, que se desenvolve em linhas de pesquisa historiográficas, linguísticas e sociológicas. No Brasil, o método histórico gramatical foi o mais desenvolvido nas igrejas protestantes e evangélicas. Isso deve-se às escolas batistas e presbiterianas espalhadas por todo o País, berço da formação teológica brasileira. Recentemente, com o reconhecimento do MEC, as instituições educacionais confessionais tiveram que adaptar seus currículos segundo parâmetros internacionais e as propostas críticas passaram a ser ensinadas em todas as instituições. Essa abordagem deve-se a necessidade de incluir o pensamento brasileiro na discussão teológica internacional. Segundo as leituras tradicionais e confessionais o método histórico-crítico é considerado um problema. Isso se deve ao distanciamento das comunidades cristãs. Geralmente é criticado pelo academicismo, pela linguagem distante e por defender posições bíblicas anti-teológicas. Ou seja: para as comunidades cristãs as propostas dos métodos críticos podem ser consideradas ofensivas à perspectiva confessional. Entre os estudantes de teologia, o problema é mais intenso. Isso acontece porque estão entre a comunidade de fé e a comunidade acadêmica. Embora não saibam, têm a importante missão de mediar essa relação. Nesse período da vida acadêmica pode-se apontar para dois problemas principais: Primeiro, a total rejeição dos métodos críticos. Nessa postura, mantém a guarda dos valores comunitários, porém abre mão da pesquisa e da perspectiva acadêmica. Segundo: a total aceitação dos métodos críticos, nesse caso, abre mão da perspectiva prática comunitária. Em ambos os casos, os acadêmicos sofrem tanto na compreensão pessoal como na percepção acadêmica de suas atividades.
Para fins de síntese, podemos apontar para propostas híbridas. Dessa forma, a solução não deve estar em nenhum dos polos, mas no diálogo entre os extremos. Embora nos círculos mais radicais não haja essa compreensão, ela é profundamente necessária. As comunidades precisam da pesquisa acadêmica para aprofundar a leitura, compreender outras dimensões do texto, perceber nuances diferentes e zelar para uma interpretação não manipulada e opressora do texto bíblico. Por outro lado, a academia precisa estar mais próxima das comunidades de fé, para perceber a realidade do povo, o chão no qual o texto é lido. Os problemas e as necessidades, as perspectivas e ansiedades do povo são a base para que a pesquisa não se distancie de seu objetivo final. Na minha prática como educador de teologia, tenho tentado trafegar nessa linha divisória, nesse entre mundos. Usando a perspectiva pastoral posso olhar para as necessidades da comunidade sem perder de vista a pesquisa e profundidade na interpretação do texto.








