A coisa mais importante
Um dia, durante uma conversa entre advogados, me fizeram uma pergunta: “O que de mais importante você já fez na sua vida”? A resposta me veio à mente na hora, mas não foi a que respondi, pois as circunstâncias não eram apropriadas. Talvez, mas tanto ele quanto sua esposa vinham de famílias numerosas e sem dúvida estariam rodeados de amigos e familiares que lhes ofereceriam apoio e conforto necessários acontecesse o que acontecesse.
A única coisa que eu faria indo lá, era atrapalhar.
Decidi que mais tarde iria ver o meu amigo.Quando dei a partida no meu carro, percebi que o meu amigo havia deixado o seu carro, aberto e com as chaves na ignição, estacionado junto às quadras de tênis.
Decidi, então, fechar o carro e ir até o hospital entregar-lhe as chaves.
Como imaginei, a sala de espera estava repleta de familiares que os consolavam.
Entrei sem fazer ruído e fiquei junto a porta pensando o que deveria fazer.
Não demorou muito e surgiu um médico que se aproximou do casal e,em voz baixa, comunica o falecimento do bebê.Durante os instantes que ficaram abraçados – a mim pareceu uma eternidade- choravam enquanto todos os demais ficaram ao redor daquele silêncio de dor.
O médico lhes perguntou se desejariam ficar alguns instantes com a criança.
Meus amigos ficaram de pé e caminharam resignadamente até a porta.Ao me ver ali, aquela mãe me abraçou e começou a chorar.Também meu amigo se refugiou em meus braços e me disse: “Muito Obrigado por estar aqui!”.
Durante o resto da manhã fiquei sentado na sala de emergências do hospital, vendo meu amigo e sua esposa segurar nos braços seu bebê, despedindo-se dele. Isso foi o mais importante que já fiz na minha vida!!!!
Aquela experiência me deixou três lições:
Primeira: O mais importante que fiz na vida, ocorreu quando não havia absolutamente nada, nada que eu pudesse fazer.Nada daquilo que aprendi na universidade, nem nos anos em que exercia a minha profissão, nem todo o racional que utilizei para analisar a situação e decidir o que eu deveria fazer, me serviu para aquelas circunstâncias: duas pessoas receberem uma desgraça e nada eu poderia fazer para remediar. A única coisa que poderia fazer era esperar e acompanhá-los. Isto era o principal.
Segunda: Estou convencido que o mais importante que já fiz na minha vida esteve a ponto de não ocorrer, devido às coisas que aprendi na universidade, aos conceitos do racional que aplicava na minha vida pessoas assim como faço na profissional.Ao aprender a pensar, quase me esqueci de sentir.Hoje, não tenho dúvida alguma de que devia ter subido naquele carro sem vacilar e acompanhar meu amigo ao hospital.
Terceira: Aprendi que a vida poder mudar em um instante.Intelectualmente todos nós sabemos disso, mas acreditamos que os infortúnios acontecem com os outros.Assim fazemos nossos planos e imaginamos nosso futuro como algo tão real como se não houvesse espaços para outras ocorrências.Mas ao acordarmos de manhã, esquecemos que perder o emprego, sofrer uma doença, ou cruzar com um motorista embriagado e outras mil coisas, podem alterar este futuro em um piscar de olhos.
Para alguns é necessário viver uma tragédia para recolocar as coisas em perspectiva. Desde aquele dia busquei um equilíbrio entre o trabalho e a minha vida. Aprendi que nenhum emprego, por mais gratificante que seja, compensa perder umas férias, romper um casamento ou passar um dia festivo longe da família. E aprendi que o mais importante da vida não é ganhar dinheiro, nem ascender socialmente, nem receber honras,”O mais importante da vida é ter tempo para cultivar uma amizade”.
Não deixe seus amigos sem saber disso. Eu não deixei você… (esta crônica me foi passada por um amigo)







