O TEMPO E A ROTINA
CERTAMENTE que o mundo é composto de mudança, não apenas porque Camões o disse, mas porque nós – todos nós – damos por isso e até colocamos cada mudança de que damos conta no tempo que lhe achamos próprio, como se o tempo fosse jarra, ou como se o tempo fosse esquife. E pomos nisso tudo uma etiqueta, escrevendo a letra gótica: PASSADO.
O esquife é o esquecimento, que é aquele lado da memória onde as luzes estão apagadas; as jarras de flores a que com frequência mudamos a água são as recordações. Então, quando as coisas se nos apresentam desfasadas dos nossos arreigados hábitos, dizemos para os desarrumadores do nosso sossego: Ah! No meu tempo é que era bom.
Quando já ninguém tem pachorra para ouvir os nossos lamentos, sentamo-nos na nossa cadeira de baloiço e embebedamo-nos de nostalgia. Se alguma sabedoria colhemos ao longo da vida, talvez cheguemos à conclusão que tudo neste lado da vida apodrece para que as flores nasçam, a vida se renove e o tempo desenhe sem embaraço as espirais de fumo com que nos engana. Porque nós dividimo-lo em passado, presente e futuro, como se fossem coisas separáveis, quando não são, são apenas formas de dizer morte, vida e renascimento. Ou antes, o que verdadeiramente existe é a vida e ao seu intenso regurgitar chamamos presente, podendo dizer-se que vida e eterno presente são sinónimos, são a mesma coisa, sendo passado um nome outro para memória e futuro uma forma de exercitarmos a imaginação. O futuro não é o presente feito dia seguinte, é a imaginação levada à prática. Neste aspecto, é bom que se saiba que, por exemplo, na língua japonesa não temos forma de conjugar o futuro e, no inglês, para o fazermos temos de usar um verbo auxiliar.
De qualquer forma, sendo evidente que o peso das memórias e das experiências nos conduz na ordem dos dias como o boiadeiro conduz os seus bichos cabisbaixos, deve realçar-se que sair da manada e recusar a canga aumenta a experiência, amplia a memória e funda o futuro com mais fértil e saudável imaginação.
Cabe dizer-se aqui que há muita gente que confunde perícia com experiência. Ora, a perícia vem-nos dos gestos mil vezes repetidos, enquanto que a experiência pouco ou nada deve à repetição, depende, isso sim, do enriquecimento dos dias e das vivências. Conheci um indivíduo a trabalhar há trinta anos no mesmo lugar, na mesma secretária, junto à mesma janela que era perito no muito pouco que fazia e inexperiente em tudo o mais que o cercava. Afinal, o que ele tinha era o mesmo e único dia repetido na rotina de trinta anos de tédio. Estava morto há muito tempo e ninguém tivera o cuidado de o avisar. (Abdul Cadre)







