O DEÍSMO ANTI-SOBRENATURALISTA
O deísmo foi a primeira forma representativa do naturalismo religioso moderno. Defende uma concepção do mundo em que Deus apenas governa por sábias leis naturais, sem necessidade de intervenções sobrenaturais. Como palavra, deísmo é de formação latina, derivada do termo Deus, significa literalmente teísmo, que, por sua vez deriva do grego Theós (= Deus). Apareceu, todavia, com a finalidade primeira de distinguir entre ateísmo e teísmo não sobrenaturalista; depois deísmo passou a denominar simplesmente oposição ao teísmo sobrenaturalista. Na verdade o sentido originário é importante, porque o deísmo, antes de tudo, defende a existência de um Deus, embora não admita intervenções sobrenaturais. O deísmo, enquanto nega as interferências sobrenaturais, não admite a “revelação” de conhecimentos comunicados por Deus. Rejeita a inspiração da Bíblia. Reinterpreta os fenômenos dados como “milagres” de forma racional. Trata como superstição a fé no efeito espiritual ex opere operato (ação “automática” dos sacramentos, independente do valor de quem os opera) atribuído à prática dos sacramentos, ou dos mistérios. Não aceita a origem divina que a Igreja (como organismo temporal) se atribuiu a si mesma.Em resumo, o deísmo não combate a religião, mas as formas que considera supersticiosas e infundadas. No contexto do deísmo também se pode praticar a espiritualidade, como efetivamente é praticada nos templos das lojas maçônicas. Supondo uma criação perfeita, o deísmo é geralmente otimista. Este otimismo será evidente, sobretudo, em Jean Jacques Rosseau (1712-1778), que destaca a bondade natural do homem, não afetado pelo pecado original alegado pelos cristãos. O que verdadeiramente teria ocorrido não seria uma queda original do homem e sim uma posterior degeneração da religião natural substituída pela visão negativa das religiões que passaram a ter vigência. Segundo esta visão, caberia agora libertar outra vez o homem, escoimando a Bíblia de suas superstições e afastando as convicções dogmáticas depois introduzidas pela Igreja. Começou o deísmo na Inglaterra, com Herbert de Cherbury (1583-1648), Lorde e diplomata, ao mesmo tempo em que autor de obras filosóficas e históricas, entre outras: Da verdade segundo se distingue da revelação, do verossímil, do possível e do falso (De veritate, prout distinguitur a revelatione, a verisimili, a possibili et a falso, 1654), Da causa dos erros (De causis errorum, 1645), Da religião das gentes (De religione gentilium,1663). Já no tempo de Herbert de Cherbury dois importantes filósofos negavam a revelação bíblica, a pretexto de insuficientemente fundada: Thomas Hobbes (1588-1864) e Baruch Espinoza (1632-1677). Mas foi sobretudo no Século das luzes que os intelectuais, especialmente os maçons, aderiram à concepção deísta.Na Inglaterra, onde o deísmo nasceu, seus representantes mais destacados foram: John Toland (1670-1722), autor de Cristianismo sem mistérios (1696), em que o depura sem supostos milagres ou crendices; Mathew Tindal (1656-1733), também autor de livro significativo, Um cristianismo tão antigo quanto a criação (1730) e que se fez conhecido como a “Bíblia de deísmo”, insistindo que os sobre naturalismos são corruptelas posteriores. Na França destacaram-se como deístas Voltaire (1694-1778) e Rousseau (1712-1778). Os enciclopedistas em geral foram deistas. Na Alemanha aconteceram adesões significativas ao deísmo: Christian Wolff (1679-1754), Samuel Reimarus (1694-1768), Imanuel Kant (1724-1804), Gotthold Ephraim Lessing (1729-1781).No século 19 o naturalismo religioso assumiu novas formas com o hegelianismo de direita (Shleiermacher) e com a interpretação histórico-crítica do cristianismo (Strauss, Renan, Harnack). Com o avanço da antropologia, da história e progresso das teorias evolucionistas, e com as reformulações da filosofia dialética de Hegel e materialista de Feuerbach ou Marx, surgiram outras maneiras de ver a religião, todas, porém, mantendo a tendência naturalista. A CABALA PANTEÍSTA ATRAVESSANDO O TEMPO. Origem da Cabala. Como doutrina sistemática, formou-se a Cabala entre os judeus do século 9º ao 13º. Depois disto continuou a inspirar o pensamento religioso e profano. Ideologicamente, a cabala é um panteísmo de fundo neoplatônico, entremeado com a tradição judaica. Pelo conteúdo da palavra, – kabbalah – significa efetivamente tradição. Segundo pretendem interpretes judeus, a cabala, como tradição, teria sido transmitida secretamente através dos tempos, remontando a Abraão, ou mesmo a Adão. Teria Moisés lançado apenas obscuramente tais doutrinas, em seu Pentateuco, que se deverá ler, portanto, com métodos especiais.Paradoxalmente, surgiu a cabala como uma reação à racionalidade da religião. Reagindo às influências da filosofia, os judeus cabalistas preferiram o dogmatismo da tradição místico-panteística e mágica contida nos escritos do passado de sua nação. Paracelso, ou Theophrastus Bombastus von Hohenheim (1493-1541), de numerosa produção literária e experiências científicas, era cabalista, e chegou a conclusões criativas. Suíço-alemão, nascido em Maria-Einsiedeln, cantão de Schwyz, estudou em Viena, Ferrara (Itália), e na Universidade de Basiléia. Pesquisou os minerais do Tirol. Lecionou medicina na Universidade de Basiléia, de 1526 a 1528. Suas inovações e oposição à medicina tradicional, fundadas em Galeno, Avicena, Rhazès, resultaram no seu afastamento da cátedra. Passou, a partir de 1929, a viajar constantemente pela Europa, difundindo suas novas idéias, sobretudo na Alsácia, Nueremberg, St. Gallen, Augsburgo, Viena. Teve em Salzburgo a proteção do Arcebispo, permanecendo ali até morrer, com apenas 48 anos. Obras de Paracelso: Onze tratados (Elf Tractat, 1524); O livro das coisas naturais (Das Buch von der natuerlichen Dingen, 1525-1526); Dos banhos naturais (Von der natuerlichen Badern (1525-1526); Dos minerais (De mineralibus, c. 1526); Dez livros de …… ……. (Zehn Buecher der Archidoxen, 1526); Bertheonea: três livros de cura dos ferimentos (Drei Buecher der Wundarznei, 1528); De como preparar remédios (De modo pharmacandi, 1528); Volume de medicina Paramirum (Volumen medicinae Paramirum, 1529 impresso em 1575, uma das obras principais, em que o termo Paramirum parece um neologismo formado do grego, com o significado de “admirabilíssimo”, contendo como um dos assuntos a observação clínica do doente; Da doença francesa (Von der franzoesischen Krankheit, 1529); Dos fenômenos caducos do dia a dia (?). Livro dos meteoros cadentes (Von den hinfallenden Siechtagen. De caducis liber meteorum, 1530); Paragrano (Paragranum, 1530, impressão póstuma em 1565, uma das obras principais), nome que dava às partículas mínimas para formar, por exemplo, remédios; Obra Paramirum (Opus Paramirum, 1531, impressão póstuma em 1562, também uma das obras principais); Escritos teológicos: Ceia vespertina do Senhor, da vida feliz (Theologische Schriften: Nachtmahl des Hern, De vita beata, 1530-1533); Magna filosofia (Philosophia magna, 1532, impressão em 1591, obra importante); Da doença de Berg (monte?). Livrinho sobre a peste. Da peste, 3 livros (Von der Bergsucht. Buechlein von der Pest. De peste libri tres, 1534); Sobre o banho em Oberschwytz, 1535); Prognóstico do ano vindouro XXIII (Prognósticon auf XXIIII Jahr zukuenftig. Die grosse Wunarzney, 1536); Livro sobre as doenças tartáricas (Buch der tartarischen Krankheiten, 1537); Magna astronomia ou toda a sagaz filosofia (Astronomia magna oder die ganze Philosophia sagax, 1537-1538, impressão em 1571, obra importante); Trilogia de Kaertner. Crônica do país de Kaertner. Sete defesas. Labirinto dos médicos errantes (Kaertner Trilogie. Chronik des Landes Kaertner. Sieben defensiones. Labyrinthus medicorum errantium , 1538, impressão em 1553 e 1564). Naturalista, teósofo e alquimista, foi Paracelso um dos inovadores da Renascença. Advertiu para a íntima união da natureza e do homem, e em conseqüência para a importância da filosofia da natureza e para a ciência natural, sempre a partir de uma visão global monista da realidade total. Aceitou idéias platônicas e gnósticas. Admitiu uma força geradora universal, a que denominou arqueu, que combinaria os elementos materiais e preservaria sempre a vida. Giordano Bruno (1548-1600), combativo e brilhante, foi um inovador dentro da linha platônica, monista e cientificista do Renascimento, todavia precocemente eliminado pelas forças da intolerância, que então tinham a seu serviço os Estados Pontifícios. Nasceu em Nola, no então reino de Nápoles. Encaminhado à vida religiosa, entrou aos 15 anos na Ordem dos Dominicanos. Teve que afastar-se da vida religiosa aos 24 anos, em virtude de suas idéias, consideradas heréticas. Bruno passou sucessivamente por Roma, Veneza e Pádua, até fixar-se dois anos em Genebra. A resistência calvinista o levou a conduzir-se para a França. Lecionou em Toulouse e depois em Paris, com aplauso dos liberais. O vigoroso ataque às doutrina de Aristóteles o obrigou em 1583 a abandonar também Paris. Estabeleceu-se então em Londres, sob a proteção do embaixador da França. Lecionou ali, por algum tempo, em Oxford. A seguir mudou-se para a Alemanha, onde ensinou em Wittenberg, depois em Helmstadt e Frankfurt sobre o Meno. Em 1592, já aos 43 anos, retornou à Itália, propalando suas idéias em Pádua e Veneza. Finalmente, em 1593, a Inquisição da Igreja Católica obteve êxito, capturando-o, mesmo fora dos limites dos Estados Pontifícios, e o enviando ao cárcere de Roma. Não aceitando retratar-se, foi finalmente condenado à fogueira, no Campo dei Fiorini. Ergueu-se a ele, quase 300 anos depois, em 1889, uma estátua, no mesmo local onde em 1593 foi queimado pela Igreja.
(Escreveu Bruno em Italiano uma primeira série de obras: Spaccio della besta besta trionfante (1584); Degli heroici furori (1585). In ENCICLOPÉDIA SIMPOZIO (texto simplificado. Pucci)Versão em Português do original em Esperanto)







