O DESAFIO DO MAÇOM: ESTUDAR
Fala-se muito da Maçonaria como Escola de Conhecimento. De uma forma muito simplista, poderíamos compará-la com uma Universidade onde, pelo menos teoricamente, pratica-se Ensino, Pesquisa e Extensão.Como programa de ensino, basta percorrer os caminhos dos três graus simbólicos e constatar, numa simples leitura, deixando de lado os procedimentos ritualísticos que usam várias formas indiretas para transmitir as mensagens, e que poderíamos denominar como métodos: Escocês Antigo e Aceito, Adonhiramita, York, Francês ou Moderno, Schröeder, Brasileiro, para ficar apenas com os chamados oficiais aceitos pelas Potências Maçônicas brasileiras (com exceção de algumas Potências, entre elas, as Grandes Lojas).
Esses métodos poderiam ser chamados de Ritos, os quais, cada um deles com belíssimas histórias e com diferentes panos de fundo, formam o ambiente necessário à execução do programa de ensino para cada grau. Esses ritos não tiveram uma geração tão rápida e mudaram com o decorrer do tempo, ao longo da história da Maçonaria desde a sua discutida origem.
A Ordem foi nascendo aos poucos, mesmo admitindo que o atestado de nascimento como Maçonaria Organizada, que ocorreu em data conhecida, exatamente no dia em que a duração das noites passou a ser mais curta que os dias: na data em que a “luz do dia” expulsava as noites: equinócio de Inverno no hemisfério norte.
O Templo Escola
Nessa Escola, as salas de aula são chamadas de Templos. É neles que aprendemos e ensinamos os programas dos três graus que foram sendo formados com o passar do tempo. Deixem então a imaginação correr – que me perdoem os autênticos – e imaginem os nossos antepassados reunidos nos canteiros de obras, ao lado das Catedrais, fazendo preleções aos seus aprendizes de ofício e acompanhando-os ao nível de companheiros. É bem provável que os Companheiros mais experientes fossem até chamados de Mestres de Obra. Imaginemos, também, que muitos desses aprendizes e companheiros tenham sido apontados e selecionados dentre centenas e milhares de trabalhadores em todas as áreas e setores: desde as pedreiras até a colocação das pedras no seu respectivo lugar do Grande Edifício. Aos poucos, esses pedreiros de bons costumes iam ingressando no seleto quadro daqueles que passariam a conhecer as técnicas da construção.Imaginemos ainda que, além da potencialidade para receber essas novas ferramentas de trabalho, essas pessoas tivessem que seguir alguns padrões de Moral e de Ética e, talvez, até pertencer à linha religiosa dos “donos” da obra. É provável até, nessa nossa imaginação, que para fugir a esse critério de escolha o potencial Companheiro tivesse que ser muito bom!Os AceitosSeguimos nessa caminhada imaginária. Ao tempo das Guildas dos Construtores – nome dado a esses grupos de trabalhadores – a sociedade se organizava. Eles foram se criando em vários pontos do território geográfico europeu, sob a proteção do poder da época. Aos poucos, esses seletos grupos, que pela natureza do trabalho deveriam ser multidisciplinares, como diríamos hoje, passaram a receber pessoas que não eram apenas profissionais. Afinal, o mercado de trabalho, com a chegada do Renascimento, foi ficando escasso: cessava o período de construção das Grandes Catedrais. Foi na Inglaterra que as Guildas não morreram, mas se transformaram!Foi aí que pessoas da sociedade certamente buscavam alguma coisa mais, que ganhariam com a convivência desses trabalhadores. A história os registrou como “aceitos”, e até registra, com documentos, quando o primeiro não trabalhador entrou para um grupo, no início do século XVII.Em poucas décadas ingressaram tantos a ponto de serem maioria e, em lugar de reunir-se nos canteiros de obras, passaram a fazê-lo em lugares mais adequados: as TABERNAS! Como nos contam os historiadores, era nas tabernas que corria a energia da sociedade: comia-se, bebia-se, reunia-se, abrigava-se! Imaginem num longo inverno, onde é que as pessoas iam buscar um pouco de calor!Podemos imaginar quão bons e agradáveis seriam essas reuniões! Afinal as transformações que estavam ocorrendo na sociedade, com nobres perdendo o poder, com o Poder da Igreja sendo questionado ou derrubado, certamente nessas reuniões – o que não seria difícil de admitir – se discutia de tudo: quem é que poderia entrar para o grupo, a festa de recepção de novos grupos, como formar vários grupos e, talvez, a coisa mais importante, para não ser o grupo pelo grupo, onde haviam várias pessoas reunidas, parece lógico que os problemas da sociedade aí seriam repassados. Afinal, esses grupos, agora já em tabernas, eram formados de pessoas de diversas classes sociais e, certamente, entre eles, cientistas, artistas, profissionais, nobres e assim por diante. E, assim, foram nascendo diversos grupos! Maçons livres em Lojas Livres!Seguem as reuniões fora dos canteiros de obraSim, as reuniões continuam. Saíam, agora, dos canteiros de obras e passavam a se reunir em outros lugares. Afinal, os novos construtores queriam continuar a aprender com essa convivência, o que, certamente, era “bom e agradável”. Dizem os estudiosos – e até brigam por detalhes – que, para relembrar porque estavam reunidos, aproveitando a habilidade de alguns artistas, desenhavam no piso das tabernas algumas figuras para relembrar seus objetivos aos presentes e manter o foco da reunião. Contam que, com o tempo, nos locais de reuniões, em lugar de desenhar passaram a fazer tapetes para serem colocados no momento da reunião. Nascia, assim, o futuro Painel da Loja.É bom lembrar, como nos contam, que nesses grupos, mesmo já não tendo ou podendo ter profissionais das construções, a hierarquia foi mantida.
A simbologia
Não é difícil imaginar que, como os antigos profissionais, as ferramentas de trabalho passaram a ser utilizadas para exprimir idéias. Afinal, a humanidade aprendeu a comparar. Talvez o artista, com um martelo e uma talhadeira, digo, um malho e um cinzel, para ser mais elegante, pudesse facilmente demonstrar como seria fácil criar uma estátua, quando tivesse na mente o que queria. O que ele faria apenas com um cinzel? O que ele faria apenas com o malho? E se ele combinasse as duas ferramentas? É… dá par tirar uma boa lição! Senão, vejamos.Essas ferramentas dos operários da construção permitem formar idéias interessantes. O material na pedreira ainda em estado bruto; a pedra trabalhada para construir uma parede, o Maço, o Cinzel, a Régua, o Compasso, a mesinha de trabalho, a Prancheta, o Prumo… Ah, ia esquecendo: para construir um edifício sólido tem que ser com pedras de boa qualidade.Qualidade da Pedra BrutaSim, a pedra para construção tem que ser de qualidade. Caso contrário, uma ou algumas pedras podres podem comprometer toda a construção. O Edifício pode cair! Imaginem uma pedra na base: se ela for podre, o pilar pode cair. Se não colocar uma pedra de boa qualidade no fechamento de um arco de pedra caem ela e as colunas-arco que a sustentam. Se o material for de boa qualidade – eles sabiam – seria como as pontes romanas, que ficam cada vez mais fortes. Pois imaginamos como esses novos especuladores estavam aprendendo com os pedreiros!O Currículo mínimo da EscolaPenso que assim foram nascendo os programas de formação desses novos construtores. Agora já pensavam não em um edifício de pedra, mas, certamente, num Edifício Social. Sonhavam com uma sociedade em que as pedrinhas ou tijolos fossem colocados nos lugares certos, num modelo perfeito. Imaginavam uma catedral e a construíam no ar, como uma visualização prévia, como um sonho a ser realizado.E, assim, novos grupos foram nascendo. Não se sabe como, mas o fato é que um novo grupo copiava do outro grupo já consolidado as obrigações que esse novo grupo deveria ter. Tem até um nome bonito para esse documento: Old Charges! Digamos obrigações. Talvez tenha nascido aí o esboço dos primeiro ritos!Provavelmente, para organizar melhor, o coordenador desses grupos, demasiadamente ocupado em construir a catedral de São Paulo, na margem direita do Tâmisa, e também da reconstrução da cidade que passara por um incêndio, teve apoio -talvez não tivesse sido exatamente assim – de um grupo que acabou “organizando” esses diversos grupos que chamavam de Lojas.Aí, quatro dessas Lojas, que levavam os nomes das tabernas onde eles se reuniam, resolveram “burocratizar” a Maçonaria: chamaram de Grande Loja de Londres! Foi a primeira, a matriz! Ah, a Maçonaria passou a ter um chefe! Aí, a Maçonaria que funcionava como Maçom Livre em Loja Livre, de forma definitiva, amplia seu poder e cria o seu próprio território: A Obediência!Mas, e o programa básico, o currículo de formação desses novos “operários”? Foi nascendo aos poucos. Em primeiro lugar, um grupo de trabalho reuniu o que já tinha sido feito. Definiram o que não poderia ser trocado para tornar perene a Ordem. Chamaram de LANDMARKS. É, porque como essa pedra para marcar os limites de uma propriedade, era coisa séria e imutável. Assim quiseram fazer ao estabelecer alguns princípios que pretendiam fossem etenos. Em seguida – ou quase ao mesmo tempo -, esse grupo de trabalho apresentou um documento que levou o nome de seu relator, e que passou a ser a Carta Magna da Ordem. Chamaram-na de Constituição de Anderson.
A Carta Magna do Maçom
A Carta Magna da Maçonaria tem muita coisa interessante: determina a obediência à Lei Moral, conta a história lendária da Maçonaria, é deísta (entendimento de Deus pela razão), e introduziu a expressão Grande Arquiteto do Universo. Veio a público, pela primeira vez, meia dúzia de anos depois da criação da Grande Loja de Londres. Aos 41 anos do século seguinte, foi reformulada – menos em seu conteúdo – em sua segunda edição. Mas, ela joga o nascimento da Ordem ao tempo de Adão e Eva, o que não agrada aos que estudaram o assunto com base nas informações hoje disponíveis. Acham que a origem não foi tão longe. Mas, mesmo assim, ela dita o primeiro grande programa de formação quando dá as primeiras pinceladas do que deve saber o Aprendiz e o Companheiro. Nem toca no Mestre, que veio a ser instituído bem mais tarde. O documento fala dos primórdios da Maçonaria desde os descendentes de Adão, passando por Noé e a Arca, a Torre de Babei, os construtores, a herança egípcia, o Templo de Salomão, o que os israelitas aprenderam com os egípcios, e assim por diante. Rotula Moisés de Grão-Mestre, chama Salomão de Príncipe da Paz, do tempo que levaram para construir o Templo no qual foram envolvidos cerca de 180.000 trabalhadores (um pouco exagerado, não é?)! Relembra que o Templo foi construído com a cooperação de outro rei – o rei de Tiro – e mais um técnico também de Tiro. Faz uma bela figura: um rei sábio que idealizou a obra, outro que ajudou economicamente e outro com habilidade para harmonizar e construir o que foi imaginado. Descreve o Templo, fala de Pitágoras e da geometria e esboça os deveres de um franco-maçom!Sabe qual é a impressão que se tem? Que os seus compiladores a viam apenas como uma organização de profissionais conscientes, pois em toda a análise, desde Adão, fala mais dos construtores do que das qualidades morais e éticas de seus atores. Será? Como diz Eleutério: não teriam a intenção de recuperar a força das Guildas como organização?
Deveres de um maçom
A Carta Magna aponta aspectos concernentes a Deus e à religião; à Loja como local de reunião dos Franco-Maçons; da promoção dos membros, ressaltando o mérito pessoal; do comportamento diante de forasteiros; do cultivo fraternal ao irmão e outros deveres.Mas, afinal, o que fazem os maçons em Loja? Aprendem muita coisa. Em primeiro lugar, um trabalho sistemático, em forma de Ordem e Disciplina. E, de uma forma geral, tudo deve ser conduzido para não aprovar a TIRANIA, trabalhar para adquirir CONHECIMENTO, a redução dos PRECONCEITOS, trabalhar pelo DIREITO, pela JUSTIÇA e o trabalhoconstante na busca da VERDADE em todos os sentidos.E… para quê?Para promover o bem estar da PÁTRIA e da HUMANIDADE, a busca de uma vida VIRTUOSA e a eliminação do VICIO. E assim, tornar FELIZ A HUMANIDADE, praticando o AMOR UNIVERSAL, colaborando no aperfeiçoamento dos COSTUMES pela pratica da TOLERÂNCIA, lutar pelos princípios da IGUALDADE e ter um comportamento de respeito à AUTORIDADE e à RELIGIÃO. Reúnem-se sob a proteção do Grande Arquiteto do Universo, têm São João Batista como patrono e devem estar vinculados a uma POTENCIA ou OBEDIÊNCIA maçônica. Antes, têm que passar pela Iniciação. Um homem LIVRE e de BONS COSTUMES, de uma forma ampla, apresenta-se como um adepto em busca da Luz Maçônica. Em alguns ritos, como o REAA, usando um pouco de práticas da alquimia, passa por uma iniciação precedida por um período de reflexão e uma luta contra os ELEMENTOS (Terra, Fogo, Água e Ar) como faziam os antigos. Segue sua caminhada numa escola que tem como moral o AMOR AO PRÓXIMO. Mas, depois de formado, o que se espera do Maçom? Ué, depois que um médico ou um engenheiro conclui a sua universidade, ele vai para a sociedade exercer a sua profissão. A partir desse momento, ele pode continuar nessa universidade como forma de reciclar, de aprender mais, mas será ELE E NÃO A UNIVERSIDADE QUEM VAI FAZER O SEU TRABALHO NO CAMPO SOCIAL para formar a sociedade que ele imagina. Será ele quem vai exercer a sua profissão, o seu papel! Será ele e NÃO A UNIVERSIDADE! (Hamilton Savi – Florianópolis-SC)







