As imagens que formamos do universo, assim como as explicações sobre sua origem, são historicamente condicionadas. Do Gênesis ao Big-Bang há uma longa caminhada.
As tradicionais gnose, alquimia e escolas de mistério, pretendiam apenas (sic) o que pretende a moderna ciência: o conhecimento adequado da realidade. O saber acumulado era menor, os instrumentos eram toscos ou inexistentes, mas a inteligência e os insights não eram inferiores.
Talvez, até, devido à rudimentariedade dos instrumentos, fosse até maior.
As imagens que formamos do universo, em nossa constante busca de sentido para a vida, derivam de uma infinidade de dados experimentais, culturais, mitológicos, simbólicos religiosas e, até afetivos.
Essas imagens, sejam populares ou sejam científicas, informam as atitudes e orientam o comportamento de quem as acalenta. O saber não é neutro e da ciência se deriva uma consciência.
As cosmologias possuem suas representações simbólicas e suas analogias. Os gregos nos legaram a idéia de cosmos, um sistema organizado que se opões à idéia de caos. A Idade Média não abandonou essa idéia; apenas a concebeu como criação da Divina Providência, que tudo ordena para seus fins. A figura que simbolizou essas concepções foi a da pirâmide: uma estrutura hierarquizada, fixa, onde, ao mesmo tempo, tudo evolui para um ponto fixo, como uma escala, e se encaixa plano dentro de plano. È uma bela imagem, conquanto extremamente rígida.
A Idade Moderna, gestada na revolução cartesiana e na mecânica de Newton, concebe o universo regido por leis naturais e perenes, em perfeito funcionamento. A metáfora dessa visão é o relógio. O universo aparece em nossas representações como um grande mecanismo.
Já a visão contemporânea é a de sistema. Rede (net) é o conceito que serve de paradigma para o pensamento atual. Net, Internet, Intranet, network: eis as palavras mais correntes em nosso dia-a-dia. É claro que as imagens populares, por inércia, ainda devem muito à idéia do velho relógio, pois ainda se vê popularmente a ciência como um conhecimento absoluto de leis invariáveis.
Para a ciência atual, contudo, o universo é um sistema aberto, em evolução, enredado num jogo cósmico de relacionamentos tão complexos que o vir-a-ser é sua constante. Essa imagem orienta hoje uma ciência não mecanicista, onde a indeterminação e a probabilidade são as regras do grande jogo.
O nosso universo em expansão já possui uma idade e Edwin Powel Hubble demonstrou, em 1924, que nossa galáxia – a Via Láctea – é irmã de, pelo menos, 100 milhões de outras. Isso é um verdadeiro choque numa cultura que ainda não se refez de todo da descoberta de que o sol não girava em torno da terra. Hubble observou, ainda que as galáxias estão se afastando entre si.
Quando observamos, do ponto de vista astronômico, um deslocamento do espectro da luz para o vermelho, isso significa que está havendo um afastamento; quando o deslocamento se dá para o azul, é porque ocorre uma aproximação. Quanto mais distante maior a velocidade de fuga (expansão). O espectro da luz das estrelas dá nossa idade: 15 bilhões de anos. Daí até a primeira molécula de carbono à vida e ao homem, foi uma longa e difícil caminhada.
Ora, expansão em todas as direções pressupõe uma explosão; para explicar essa explosão, George Lemaitrem, astrônomo belga, propôs a teoria do Big-Bang, da grande explosão primordial.
Na origem havia um núcleo, trilhões de vezes menor que a cabeça de uma alfinete (o ovo cósmico?). A enorme concentração de energia e matéria produzia um calor extremo. Pura fantasia? Nem tanto. Hoje em dia, em laboratório, já foi possível produzir experimentalmente situações que se aproximam bastante das teorizadas.
Do fogo ao oxigênio, passando pela constituição da terra e da água (os quatro elementos?), essa a evolução cósmica. Como a evolução da vida é a evolução da consciência, no princípio éramos pó e tendemos a ser espíritos.
Há nessas descobertas grandes lições. Uma muito importante é que as condições favoráveis à vida não são anteriores a ela: a vida foi criando suas próprias condições, foi resistindo às adversidade, foi lutando, foi se adaptando para efetivar-se. A vida produz a si mesma.
Outra lição é que tudo constituía originalmente uma unidade: pedras e plantas, homens e animais, somos todos gerados no mesmo útero. Nós não somos senhores de uma natureza que está fora de nós. Também não fomos criados brancos, amarelos, vermelhos ou negros. Não fomos concebidos ricos ou pobres, senhores ou escravos. Tudo isso fomos nós que produzimos em nossa história, que é de certo modo a história de nossa inconsciência.
Essa unidade ressuscita o mito de Gaia, a deusa Terra, grande organismo vivo com todos seus elementos interpendentes, onde, embora portadores de consciência, somos apenas um dos fios da trama da vida.
Não foi o homem quem criou a vida, entretanto é ele o único capaz de destruir esses 15 bilhões de anos de esforço da mãe Terra por criar e preservar a vida.
Recuperaremos em tempo a consciência de nossa Unidade? Conseguiremos romper os limites de nossa inconsciência?
Quem viver, verá!
[1] Baseado no cap. II do livro O Despertar da Águia, de Leonardo Boff, editora Vozes, 1998.







