A PROPÓSITO DA
REENCARNAÇÃO
Escrevo a propósito da reencarnação, mas não
do propósito da mesma, porque isso seria envolver-me em algo a que me esquivo o
mais que posso, pois não me cabe catequizar ninguém, apenas me disponho a
apresentar perspectivas pessoais e indicar fontes que considere interessantes.
Podemos ver a
reencarnação numa perspectiva imediatista e restrita, o que não obsta, antes
pelo contrário, a que submetamos tal perspectiva aos seguintes pressupostos
1) – A vida humana
manifesta os dois opostos fundamentais integrantes do seu processo de renovação
permanente: NASCER e MORRER.
2) – Nascer e morrer
são transitoriedades, um processo pelo qual a consciência navega entre planos e
assume estados evolutivos do ser.
3) – A morte
caracteriza-se pela desagregação material e pelo esquecimento.
Postos estes
quesitos, aceitemos ainda que nascer envolve morrer-se um pouco em cada dia,
como inevitabilidade, e reencarnar a cada minuto, como assumpção. Viver
plenamente é ter o entusiasmo da assumpção, dado que o contrário fará de nós
apenas cadáveres adiados que procriam, como diria Pessoa.
Relembremos que a
palavra entusiasmo deriva do grego «enthousiasmós», que quer dizer inspiração
divina…
Cingindo-me, então, a
escrever «a propósito», começaria por dizer que não existe um conceito pacífico
e unívoco do que seja a reencarnação, tal como não existe para Deus. Em ambos
os casos, encontraremos sempre quem negue e quem afirme, os que acreditam e os
que não acreditam, e, dum lado e do outro das respectivas barricadas poucos
cuidam das distinções, como se tudo estivesse claramente definido; como se cada
um que com outro parece concordar concordasse mesmo e aqueles que discordassem
em nenhum ponto pudessem estar de acordo.
Quem acredite na
reencarnação e quem não acredita na reencarnação – uns e outros – não poderá
provar nem a forma como acredita nem muito menos explicá-la convincentemente,
mormente à luz da ciência.
Todavia, mesmo nos
meandros da investigação submetida aos critérios da ciência, crescem os
indícios de que a consciência sobrevive à morte física. Neste aspecto, há uma
obra de excepcional interesse, intitulada «O que Acontece Quando Morremos», da
autoria do Dr. S. Parnia, obra que vem na linha dos trabalhos publicados pelo
Dr. Raymond Moody, v.g. «A Vida Depois da Vida».
Pode dizer-se que o
interesse da ciência – o interesse académico – pelas possibilidades da
sobrevivência da consciência se vem consolidando desde há mais de trinta anos,
embora a nada de conclusivo esse interesse tenha chegado, permanecendo o
presumido fenómeno da reencarnação confinado à metafísica. Neste campo, como é
óbvio, as diversas posições a respeito envolvem muita controvérsia e muito
desajuste.
As religiões em geral
defendem a sobrevivência da consciência à morte física, mas nem todas aceitam a
reencarnação, havendo até as que veementemente condenam tal crença, nem sempre
por simples razões teológicas e estritamente doutrinais. De qualquer forma, há
duas perguntas fundamentais que se podem e devem fazer:
Primus – O que é a
reencarnação?
Secundus –
Aceitando-a, o que é que reencarna?
Do meu ponto de
vista, os livros populares ditos de divulgação esotérica – eu chamar-lhes-ia de
confusão esotérica –, nomeadamente a literatura light inserida no
fenómeno new age, têm espalhado um ror de crenças muito aceites, apesar
de pouco aceitáveis, quer sob o ponto de vista metafísico, quer no âmbito
religioso mais geral, quer especialmente e por maioria de razão no que respeita
à Tradição. A facilidade com que se leva as pessoas a acreditar que se morre e
se nasce como quem simplesmente muda de camisa, chega a ser chocante, podendo
levar os mais desprevenidos à diabolização da carne e ao desprezo doentio do
corpo.
Este que aqui escreve
está convencido de que, quando morrer, morre definitivamente, por mais que quem
o manda escrever e lhe orienta a mão lhe sobreviva e vá orientar um outro
personagem, a quem lembrará ou não o que o tempo consumiu. No respeito a esta
lógica, quiçá desagradável para muitas crenças profundamente instaladas, creiam
que ele – que sou eu – não foi numa «outra vida» o Napoleão nem o D. Afonso
Henriques…
Se eu me recordar de
ter sido uma ou outra destas figuras históricas, não será por eu ser delas uma
reencarnação, mas por mor de um outro fenómeno menos divulgado, que faz com que
tudo esteja em tudo, de que poderemos falar em outra ocasião. E, no entanto,
creio haver em mim um princípio individualizado, que se vem formando há
milénios, servindo-se de diversos corpos físicos e constituindo-se naquilo que
os rosacruzes chamam personalidade-alma (ou personalidade da alma). Se esta for
a realidade, então, neste momento, a minha personalidade-alma, que é uma
espécie de contra-regra no meu teatro particular, ao serviço da alma humana, é
uma súmula, uma resultante, um compósito de muitas vivências (não apenas uma).
É por esta razão que eu digo que não fui esta ou aquela personalidade
conhecida, nem aqueloutra desconhecida e afirmo muitas vezes, para desespero
dos crentes, que eu não tenho alma, é a alma que me tem a mim, sendo minha
obrigação reflecti-la quanto possa. O mais que possa, todavia, nunca é quanto
devo.
(Abdul Cadre –
Portugal)
vENDAS
nOVAS, 6 DE mAIO DE 2012







