Minha Utopia
Termino de ler “A soma e o Resto – um olhar sobre a vida aos 80 anos”, de Fernando Henrique Cardoso, e uma frase não me sai da cabeça: “sem utopias é difícil sobreviver; a história é feita de utopias”. Fiquei pensando nisso e descobri que minha vida é um constante embate entre o que penso, o que sou (diante de minhas próprias circunstâncias) e como me relaciono com o material fantasioso que a minha cabeça produz a cada instante.
Mandou chamar o Luiz Dulci e pediu para ele convidar FHC para um dedinho de prosa. Dois dias depois, os dois ex-presidentes se encontravam. Conversaram bastante. Superaram mágoas passadas. Puseram os pingos nos is e decidiram que a partir daquela conversa promoveriam outras mais densas nos próximos dias.
Pelo lado de FHC a coisa era mais complicada. Ele ia precisar de todo seu charme e reunir forças intelectuais para superar os obstáculos previstos. Ele teria que vencer a teimosia de Serra. Teria que contornar a figura sinuosa de Aécio Neves. Teria que buscar entendimentos nas alas mais conservadoras e anti-PT do tucanato para convencer de que era essa a melhor saída política diante do crescente imblogio político que o País poderia viver em futuro próximo.
O mais complicado seria definir como seria o jogo sucessório de 2014. PT e PSDB aceitariam convergir para a candidatura de Dilma com um vice tucano? Como seria depois? Reviveriam na forma (e não no conteúdo) a nova versão da política do café com leite da República Velha, só que num sistema sucessivo de presidentes ora de um partido ora de outro, ao longo do tempo?
Tanto Lula como FHC sabiam que tinham que superar a si mesmos neste processo: abrir mão de vaidades, veleidades e de algumas verdades arraigadas pela experiência pessoal de cada um. Além disso, teriam que transpor esse processo de construção de tolerância política para a sociedade, sem perder a perspectiva de aprofundamento da democracia, da liberdade, do igualitarismo, e da lógica da economia de mercado. Não seria fácil. Se fosse, não seria uma utopia.
Percebo de imediato que no campo político ter utopia está muito difícil. É mais fácil viver em delírio, observando passarinhos da minha janela.







