Espalhando vento
Os marqueteiros políticos são inventivos. O
verbo que eles estão usando cada vez mais agora é “dissipar”. Qualquer desgaste
pessoal, crise partidária, pisada na bola do assessorado, eles afirmam com
certa arrogância: “fique tranquilo, vamos dissipar isso”. Ou seja: por trás
dessa frase eles querem dizer que a memória do eleitor é tênue e a sobreposição
de fatos leva o sujeito a esquecer das manchetes de ontem e se empolgar com a
agenda positiva de hoje, que será, de certa maneira, reforçada com o horário
eleitoral de amanhã. Tudo dominado.
Então, nesta fase de pré-campanha as coisas
mais absurdas são permitidas, inclusive Lula ser fotografado sorrindo ao lado
de figuras como Paulo Maluf, como se viu recentemente. A imprensa vive de
novidades e o senso crítico do chamado eleitor médio está baixíssimo. Como
afirmam os marqueteiros: tudo se dissipa. E a estratégia é clara: antecipar ao
máximo as más notícias para que, durante a campanha, sejam criadas as vacinas
necessárias para neutralizá-las.
Portanto, não se iludam aqueles com
impressões e análises momentâneas nesta fase de pré-campanha. Tudo será
“dissipado”. No primeiro momento, dizem os especialistas, os ajustes de uma
campanha eleitoral provocam curto-circuito, contrariedades pessoais, noticiário
negativo, mas quando a coisa engrena pelas mãos dos magos do marketing, aqueles
acontecimentos do passado ficam como um traço de lembrança, perdidos no tempo,
sufocados em meio à cacofonia estridente das várias mídias em funcionamento.
Por enquanto, tudo é entretenimento. A gente
se diverte. Cada personagem do mundo político – candidato ou não – encontra
nestes meses vacantes o momento ideal de fazer seu showzinho particular.
Certamente, daqui a algumas semanas, tudo aquilo que causou certo furor nestes
dias loucos terminará se esvaindo com os ventos dos “fatos novos” que surgirão
no processo de disputa. Quem viver, verá.
Agora, o caso Lula/Maluf, que vem causando
muito frisson nos meios políticos, pois se tornou um paradigma destes novos
tempos em todo o País. Não sei a razão, mas lembrei-me de um personagem
emblemático do romance filosófico de Robert Mussil, “O Homem sem Qualidades”,
que diz que quando um homem (cito a frase de cabeça) resolve dar de presente
sua alma é melhor que entregue apenas os juros – e nunca o capital.
Só que neste caso, Maluf parece que exigiu o
capital político do PT (se é que depois do mensalão, dos aloprados etc. sobrou
algum), algo que Lula (cada vez mais pragmático e autoritário) entregou de bom
grado, mesmo porque está convencido que as pessoas que o apoiam e o admiram não
tem nada a ver com o PT. Sua imagem está completamente descolada do aparelho
partidário. E, no fim, tudo será “dissipado”. Mesmo a famosa fotografia.
Lula sabe que jogo eleitoral é uma corrida
contra o tempo. À medida que vai se afunilando o processo, as eleições terminam
ganhando contornos emocionais, fazendo com que os acontecimentos duros de hoje
se transformem em fumaça nas semanas que antecedem o dia D. Os marqueteiros
conhecem a matéria e dizem que qualquer segundinho no horário eleitoral da TV
vale ouro.
De certa forma, eles tem razão. O sistema
político brasileiro é esquizofrênico. E o jogo só se faz sendo jogado. Só que
as decisões de líderes políticos carregam em si uma espécie de pedagogia
social. A partir de agora, será interessante os eleitores observarem que todo
acordo político será viável (coisas inimagináveis, inclusive) com a vantagem de
que nenhuma nudez será castigada.
(Jornalista dantefilho@folha.com.br)







