Os Transertões de Augusto de Campos
Que me importa, a mim, que o leitor estaque na leitura corrente, se a
impressão que lhe dou com esse termo esquecido é a mais verdadeira, a mais
nítida, e, em verdade, a única que eu lhe queria dar?! (Euclides da Cunha)
O inigualável Euclides da Cunha é um gênio e como tal conseguia transformar
um árido relatório técnico, como nos reconhecimentos de fronteiras do Brasil
com o Peru e do Peru com a Bolívia, em obras magistrais onde argumentos de
irrefutável lógica cartesiana ombreavam com a história e acompanhavam
harmonicamente seus devaneios de pura poesia. No épico “Os Sertões” sua visão
holística e cultura poliédrica foram reconhecidas incontestavelmente pela
crítica nacional e estrangeira.
– O Imortal Euclides da Cunha
Conta-nos contristado os episódios horríveis da caatinga conflagrada.
Repugnava-lhe aquela reação da legalidade que não lhe pareceu na altura da
nossa força militar, como não agiu consoante à cultura que, como um povo
civilizado e cristão, representávamos. Não acusava a indivíduos; reprovava,
porém, a ação descabida, errônea, incontida dos responsáveis. (Teodoro Sampaio)
Logo após a publicação de “Os Sertões”, passou a ser reconhecido,
indubitavelmente, como o maior escritor brasileiro do seu tempo e para mim, em
particular, de todos os tempos. O escritor e crítico literário Tristão de
Alencar Araripe Júnior promoveu-o de “Recruta a Triunfador”. A primeira edição
da obra foi esgotada em tempo recorde e, como reconhecimento, a Academia
Brasileira de Letras elegeu-o, merecidamente, para a vaga de Valentim
Magalhães.
– Augusto Luís Browne de Campos
Augusto Luís Browne de Campos nasceu em São Paulo, em 1931. Poeta, tradutor,
ensaísta, crítico de literatura e música, em 1951 publicou o seu primeiro livro
de poemas – “O rei menos o reino”. Em 1952, com seu irmão Haroldo de Campos e
Décio Pignatari, dando início ao movimento internacional da Poesia Concreta no
Brasil, lançou a revista literária Noigandres, origem do Grupo Noigandres. Em
1955, no segundo número da revista, publicou uma série de poemas em cores,
Poetamenos, considerados os primeiros exemplos consistentes de poesia concreta
no Brasil. (JÚNIOR)
– Transertões
Augusto de Campos escreveu, em 03.11.1996, um interessante artigo denominado
“Transertões” para a Folha de São Paulo em que ele chama a atenção para a
dificuldade de se classificar a linguagem empregada por Euclides da Cunha nos
seus “Os Sertões”. Reporta-nos Campos:
No extenso acervo da literatura crítica de “Os Sertões”, tão saturado que
parece deixar pouco espaço para alguma nova vereda, diversos estudiosos
chamaram a atenção para os aspectos poéticos da linguagem euclidiana.
Resistente às categorizações estilísticas, a obra já foi qualificada como quase
tudo, de romance-poema-epopeia – Afrânio Coutinho – a ensaio de crítica
histórica, nenhuma classificação logrando definir-lhe cabalmente os contornos.
Ao próprio Euclides não haveria de desagradar a atribuição da categoria
poética ao seu livro, já que ele próprio chegou a conceituá-lo, numa
dedicatória, “poema de heroísmo e brutalidade”, como lembra Olympio de Sousa
Andrade – “História e Interpretação de Os Sertões”. De fato, as palavras
“poesia”, “poema”, empregadas em sentido amplo, emergem instintivamente à
leitura do livro, sinalizando o viés estilístico que nos impede de enquadrá-lo
“tout court” como prosa. Outra coisa, porém, é considerar o que se poderia
chamar, mais rigorosamente, de poética de “Os Sertões”, ou seja, os traços
específicos que definem a linguagem da poesia que reponta no texto,
extraindo-o, em momentos relevantes, do domínio típico da prosa, de ficção ou
outra.
Dentre tais características avulta o emprego do verso. Nesse sentido,
ninguém parece ter ido tão longe como Guilherme de Almeida, nem haver sido tão
preciso quanto ele no apontar o implícito e muitas vezes flagrante alento
“versificatório” da frase euclidiana. Em tom despretensioso de cronista,
publicou o poeta, há 50 anos, no “Diário de São Paulo” de 18.08.1946,
percuciente artigo intitulado “A Poesia d’Os Sertões”, no qual assinalava a
existência de numerosos versos metrificados ou livres e mesmo de alguns
excertos poéticos, no texto. (CAMPOS)
– Inspiração Euclidiana
Na Amazônia inúmeras formas impressionaram minha retina, despertaram minha
atenção e estimularam minha imaginação, uma delas, em particular, marcou
indelevelmente meu inconsciente não apenas por sua beleza, mas sobretudo pela
energia e crueldade que se esconde por detrás de cada tentáculo do apuizeiro
(phicos fagifolia), que sufoca progressivamente a árvore hospedeira até
matá-la.
A linguagem euclidiana inspirou escritores de sua época e continua a
iluminar o espírito de literatos de todos os tempos. Vejamos como Euclides se
refere ao apuizeiro:
O apuizeiro é um polvo vegetal. Enrola-se ao indivíduo sacrificado,
estendendo por sobre ele um milhar de tentáculos. O polvo de Gilliat dispunha
de oito braços e quatrocentas ventosas; os do apuizeiro não se enumeram. Cada
célula microscópica na estrutura de seu tecido se amolda numa boca sedenta. E é
uma luta sem um murmúrio. Começa pela adaptação ao galho atacado de um fio
lenhoso, vindo não se sabe donde. Depois, esse filete intumesce, e, avolumado,
se põe, por sua vez a proliferar em outros. Por fim, a trama engrossa e avança
constringente, para malhetar a presa, a que se substitui completamente. Como um
sudário o apuzeiro envolve um cadáver; o cadáver apodrece, o sudário reverdece
imortal. (CUNHA, 2000)
O escritor paraense Raymundo Moraes por sua vez, sem perder seu próprio
estilo:
Não se limita a sugar a vítima – improvisado vampiro verde – cose-a nas
dobras funéreas de um pano fantástico, a mortalha-a, e, daquele sandenito
lúgubre, refloresce e se esgalha triunfantemente. Das batalhas surdas que se
travam na planície, nenhuma de certo tão empolgante, ao mesmo tempo que tão
calada como a dessa epífita chamada “phicos fagifolia” com os mais vigorosos
representantes da mata. (…) trama compressora de braços e pernas,
assemelha-se ao cefalópodo dos pélagos profundos. Tudo que se distende e tem
curvas, das serpentes da Laocoonte às chamas do inferno, desenha-se na
estamenha coreassea daquela nova roupagem botânica, como se as formas
celindroides e ofídicas da casca fossem o sinal e o aviso dum estigma. (MORAES)
– Os Sertões
Chamo a atenção para este capítulo da épica obra de Euclides e, em especial,
para os textos em negrito.
Capítulo III – Higrômetros Singulares
Não a observamos através do rigorismo de processos clássicos, mas graças a
higrômetros inesperados e bizarros.
Percorrendo certa vez, nos fins de setembro, as cercanias de Canudos,
fugindo à monotonia de um canhoneiro frouxo de tiros espaçados e soturnos,
encontramos, no descer de uma encosta, anfiteatro irregular, onde as colinas se
dispunham circulando um vale único. Pequenos arbustos, icozeiros (caparidáceas)
virentes (florescentes) viçando em tufos intermeados de palmatórias de flores
rutilantes, davam ao lugar a aparência exata de algum velho jardim em abandono.
Ao lado uma árvore única, uma quixabeira alta, sobranceando a vegetação
franzina. O sol poente desatava, longa, a sua sombra pelo chão e protegido por
ela – braços largamente abertos, face volvida para os céus – um soldado
descansava. Descansava… havia três meses.
Morrera no assalto de 18 de julho. A coronha da Mannlicher estrondada
(esmigalhada), o cinturão e o boné jogados a uma banda, e a farda em tiras,
diziam que sucumbira em luta corpo a corpo com adversário possante. Caíra,
certo, derreando-se à violenta pancada que lhe sulcara a fronte, manchada de
uma escara (crosta de ferida) preta. E ao enterrar-se, dias depois, os mortos,
não fora percebido. Não compartira, por isto, a vala comum de menos de um
côvado (0,66m) de fundo em que eram jogados, formando pela última vez juntos,
os companheiros abatidos na batalha. O destino que o removera do lar
desprotegido fizera-lhe afinal uma concessão: livrara-o da promiscuidade
lúgubre de um fosso repugnante; e deixara-o ali há três meses – braços
largamente abertos, rosto voltado para os céus, para os sóis ardentes, para os
luares claros, para as estrelas fulgurantes… E estava intacto. Murchara
apenas. Mumificara conservando os traços fisionômicos, de modo a incutir a
ilusão exata de um lutador cansado, retemperando-se em tranquilo sono, à sombra
daquela árvore benfazeja. Nem um verme – o mais vulgar dos trágicos analistas
da matéria – lhe maculara os tecidos. Volvia ao turbilhão da vida sem
decomposição repugnante, numa exaustão imperceptível. Era um aparelho revelando
de modo absoluto, mas sugestivo, a secura extrema dos ares.
Os cavalos mortos naquele mesmo dia semelhavam espécimens empalhados, de
museus. O pescoço apenas mais alongado e fino, as pernas ressequidas e o
arcabouço engelhado (enrugado) e duro. À entrada do acampamento, em Canudos, um
deles, sobre todos, se destacava impressionadoramente. Fora a montada de um
valente, o Alferes Wanderley; e abatera-se, morto juntamente com o cavaleiro.
Ao resvalar, porém, estrebuchando malferido, pela rampa íngreme, quedou,
adiante, à meia encosta, entalado entre fraguedos (rochedos). Ficou quase em
pé, com as patas dianteiras firmes num ressalto da pedra… E ali estacou feito
um animal fantástico, aprumado sobre a ladeira, num quase curvetear (empinar),
no último arremesso da carga paralisada, com todas as aparências de vida,
sobretudo quando, ao passarem as rajadas ríspidas do Nordeste, se lhe agitavam
as longas crinas ondulantes…
Quando aquelas lufadas, caindo a súbitas, se compunham com as colunas
ascendentes, em remoinhos turbilhonantes, à maneira de minúsculos ciclones,
sentia-se, maior, a exsicação (secura) do ambiente adusto (árido): cada
partícula de areia suspensa do solo gretado e duro irradiava em todos os
sentidos, feito um foco calorífico, a surda combustão da terra.
Fora disto – nas longas calmarias, fenômenos óticos bizarros. Do topo da
Favela, se a prumo dardejava o Sol e a atmosfera estagnada imobilizava a
natureza em torno, atentando-se para os descambados, ao longe, não se
distinguia o solo.
O olhar fascinado perturbava-se no desequilíbrio das camadas desigualmente
aquecidas, parecendo varar através de um prisma desmedido e intáctil, e não
distinguia a base das montanhas, como que suspensas. Então, ao Norte da
Canabrava, numa enorme expansão dos plainos perturbados, via-se um ondular estonteador;
estranho palpitar de vagas longínquas; a ilusão maravilhosa de um seio de mar,
largo, irisado, sobre que caísse, e refrangesse, e ressaltasse a luz esparsa em
cintilações ofuscantes… (CUNHA, 1984)
– Transertões
Embora alguns autores tenham sido nitidamente inspirados outros, apaixonados
ou contaminados mesmo, pela euclidiana linguagem, transcreveram-na “ipsis
litteris”.
Outra coisa, porém, é considerar o que se poderia chamar, mais
rigorosamente, de poética de “Os Sertões”, ou seja, os traços específicos que
definem a linguagem da poesia que reponta no texto, extraindo-o, em momentos
relevantes, do domínio típico da prosa, de ficção ou outra. (CAMPOS)
Soldado
(Augusto Luís Browne de Campos)
(Hiram Reis e Silva, Porto Alegre, RS, 05 de maio de 2014)







