Insatisfações pipocam por todo lado
Greve de policiais militares na Bahia; greve de
policiais civis em 13 estados; de motoristas de ônibus na capital paulista; dos
professores municipais paulistas, e assim, greve e manifestações Brasil afora. Ninguém
entende por que tantas categorias estão insatisfeitas num país onde tudo anda
às mil maravilhas nas versões oficiais. Por formação histórica, a sociedade brasileira, em sua
grande maioria, é contra a greve e tacha os grevistas de irresponsáveis. Quem
faz greve são os escravos atuais que possuem, a duras penas, o direito de
manifestar suas insatisfações. Mais do que contra a realização da Copa do Mundo
de futebol, já há algum tempo as manifestações refletem muito mais um mal
estar, uma angústia reprimida, que pode chegar até a uma aflição raivosa contra
os desmandos, a falta de qualidade nos serviços públicos e até contra a
linguagem contemporizadora das autoridades, totalmente dissociada da realidade.
A saúde pública está num verdadeiro caos, próximo ao
esculacho, com a presença constante de atos de deboche e menosprezo aos
pacientes. Como não tem solução, as autoridades só falam dos milhões destinados
e percentuais de primeiro mundo. Ora, isso reforça que algo está muito errado
quando sai dos cofres públicos dinheiro de primeiro mundo para fornecer
um serviço desumano de mundo nenhum. As perguntas sem respostas são as de
sempre: para onde foi o dinheiro e quem deveria fiscalizar esse percurso? Essa
sangria se aplica à educação, à segurança, ao transporte público.
Com toda essa agitação, a imprensa chapa-branca, as
autoridades e as pessoas que não utilizam esses serviços vendem a ideia maldosa
de que o povo reclama fortuitamente, apenas por capricho de grupos contrários
ao governo, por puro interesse político-partidário. É uma defesa simplista
demais para uma situação que requer serenidade. Faltam olhar no próprio umbigo
e perceberem a sujeira que fizeram com esse país. Não podem alegar
desconhecimento, surpresa ou qualquer outra estratégia tola como essas.
Parece óbvio demais que a insatisfação transcende à
onda da Copa. E nisso há outro equívoco ingênuo. Os mesmos que defendem a Copa
como vitrine para mostrar o país ao mundo criticam os protestos por serem
oportunistas. Eles defendem protestos nos desertos. Só os incautos defendem
paralisações sem prejuízo a alguém e sem nenhuma visibilidade.
Recentemente, o ministro Teori Zavaski deu um exemplo
dessa linguagem dissociada da realidade. Num dia mandou soltar 12 presos de uma
operação da Polícia Federal, no dia seguinte determina a prisão de todos,
exceto, coincidentemente, o diretor da Petrobras, o principal acusado do
esquema. E rebate aos críticos dessa decisão pingue-pongue com a afirmação de
que não mudou o entendimento e nem retrocedeu. Quer dizer que os argumentos e
fundamentos jurídicos podem ser os mesmos para fazer ou desfazer sobre as
mesmas pessoas e os mesmos fatos? Quem entendeu que responda.
Posição semelhante são as ameaças de punição aos
grevistas de ônibus pelas autoridades paulistas. Enquanto eles ameaçam
trabalhadores insatisfeitos – e com certeza punirão – continuam os caixas
eletrônicos subindo aos ares em todo o estado de São Paulo. É inconcebível que
façam tanta ameaça de punição a trabalhadores aviltados nos seus salários e
benefícios, ao mesmo tempo em que não há nenhuma resistência aos assaltantes de
banco. É bom que as autoridades não repitam o menosprezo do governador Geraldo
Alckmin no início das manifestações há um ano. Ao povo só resta a indignação
geral e os recados estão surgindo de todas as partes. Caso as autoridades
prefiram coisas dissociadas da realidade, esse desvario pode levar o país a uma
convulsão social.







