À Glória do Grande Arquiteto do Universo
Será a harmonia por si só o mecanismo central regulador da evolução da sociedade humana?
Como evolui uma sociedade regida pelo conceito fundamental da harmonia? Para respondermos
a esta questão filosófica, necessitamos de um retorno no tempo. O meu convite é para que nos
situemos durante a gloriosa XVIII Dinastia (a primeira do Novo Império), época aurea em que o
Egipto chegou a ser, pela primeira vez, uma potência mundial. Por volta do ano 1375 antes da
Era Moderna, subiu ao trono um jovem Pharaó que, tal como seu pai, se chamou Amen’hotep ou
Amenófis IV (Ámon-Óphis = Ámon está contente). Ora, alguns anos mais tarde (cerca de 1364),
mudou de nome. Mas, porque no Oriente o nome é a qualidade do ente designado, com ele o
Pharaó mudou também a essência da sua vida. E em que sentido? Conta-nos a História, a
depositária da grande memória colectiva dos povos, que este rei procurou impor aos egípcios
uma nova religião, uma religião contrária às tradições milenares e a todas as formas familiares de
viver. Esta religião caracterizou-se pelo mais rigoroso monoteísmo e, tanto quanto podemos
afirmar de acordo com os conhecimentos actuais, foi uma das primeiras tentativas do género
empreendidas na História da Humanidade. Com a crença num deus único nasceu igualmente um
fenómeno impensável nos antigos paradigmas religiosos egípcios: a intolerância religiosa.
Consequentemente, o reinado de Amen’hotep foi curto e conturbado, terminando abruptamente
ao fim de 17 anos.
De onde surgiu esta religião monoteísta de breve duração? Uma boa parte dos estudiosos
admitem que, algum tempo antes da emergência deste fenómeno, já na escola sacerdotal de On
– Heliópolis – se movimentavam algumas tendências no sentido de desenvolverem a
representação de um deus universal, no qual se realçavam alguns aspectos éticos da sua
essência. Durante o reinado do Pharaó Amen’hotep III, pai e antecessor do referido reformador, a
adoração do deus solar Áton ou Atoum, alcalçou um novo apogeu, relegando para posição
secundário o deus Ámon, adorado no templo de Tebas. Foi assim que, logo no início do seu
reinado, o jovem monarca encontrou na religião de Áton um movimento que não seria necessário
criar do nada, bastando-lhe apenas integrar-se nele. Mas ele não se ficou por aqui. A sua acção
foi profunda, uma vez que acrescentou ao anterior rito algo de novo, transformando a doutrina do
deus universal em verdadeiro monoteísmo através da introdução de elementos da exclusividade,
rigor e intolerância.
Agora, a um senhor absoluto na Terra, passou a corresponder apenas um senhor único que
reinava nos céus. E, Amen’hotep passou a chamar-se Ikhn-Áton ou Akhen-Áton (“prestável para
Áton” ou “eficaz por Áton”). A medida seguinte consistiu no abandono da capital, Tebas,
dominada pelo culto de Amon. O Pharaó mandou construir uma nova cidade, mais para norte,
junto ao rio, a que chamou Akhet-Áton – o Horizonte de Áton. Actualmente, as suas ruínas
denominam-se Tell-el-Amarna.
A intolerância gerou intolerância. As circunstâncias da morte de IkhnÁton são obscuras.
Aparentemente, foi assassinado. Em 1347 antes da Era Moderna, sucedeu-lhe o filho – ou talvez
genro? – Tutankhaton (Tut-Ankh-Áton = Imagem viva de Áton), o qual acabou por ceder às
pressões políticas, retornar a Tebas, e adoptar o nome Tutankhamon (Tut-Ankh-Ámon = Imagem
viva de Ámon). Também ele morreu jovem (1338 a.E.M.), ao que parece-se, igualmente vítima de
assassinato – a sua múmia apresenta uma fractura craniana na região occipital. Na perspectiva
de alguns egiptólocos e ocultistas, como é o caso de Maurice Cotterell, o túmulo deste Pharaó
guardava segredos maravilhosos, codificados na decoração esplendorosa das paredes e dos
objectos, alguns dos quais foram já interpretados. Por exemplo, o peitoral do escaravelho
conta-nos que o polo solar efectua uma rotação em 37 dias e que o equador solar demora 26
dias a completar essa mesma rotação, quando medida à superfície do sol. Revela também que o
ciclo das manchas solares atinge o seu ponto máximo aproximadamente de 11,5 em 11,5 anos.
Facto é, que depois destes dois Pharaós, não mais a religião egípcia voltou a evoluir em direcção
ao monoteísmo ético. Para percebermos o impacto nefasto desta experiência monoteísta de
curta e agitada duração, é preciso analisar a essência da espiritualidade egípcia que antes disso
reinou e que depois disso ainda triunfou por vários séculos. Primordialmente, Pharaó (em egípcio,
par’ó ou pér-âá, designação que significa “a grande casa”) era – e depois voltou a ser – a imagem
do Senhor do Universo. Figura criada pelo Mestre da Vida com o objectivo de aumentar o seu
explendor e transmitir à Humanidade a sabedoria dos céus, Pharaó era por excelência o garante
da Harmonia. Ele era, como lhe chamou Baillet, o «coração do ser colectivo do Egipto», um
coração imenso, à medida do universo, um coração cujo primeiro dever consistia em acolher o
conjunto das expressões humanas para as sacralizar. Ele era também um modo de governo dos
homens e, simultaneamente, um modo de governo de si mesmo.
Pharaó era sia, palavra que significa sabedoria intuitíva, era o laço de participação que une a
ordem cósmica com a comunidade egípcia, era o coração simbólico que bate por cada homem.
A ele cabia a tarefa incomensurável de gerar incessantemente a Harmonia: Pharaó unificava o
Alto e o Baixo Egipto, a terra firme e o rio que a fecundava, o mundo material terrestre e o mundo
espiritual celeste, era o único humano encarregue de pacificar os deuses, era o rei guerreiro que
cortas as trevas e previne as perturbações de todas as ordens. Ele era ainda, por vontade dos
deuses, o único proprietário da terra do Egipto na sua totalidade, o garante da cheia do Nilo, o
regularizador das estações, o mestre dos celeiros, a quem cabia armazenar na terra os frutos
dos céus. Além disso, estava simbolicamente presente, sob diversas formas, em todos os
templos e realizava – mesmo que por delegação – todos os ritos.
A respiração comunitária do povo egípcio não existia senão pelo canal da pessoa real em que
cada ser encontra o seu fogo, a sua própria razão de viver. Pharaó era idêntico à Luz no exercício
das suas funções, residindo a sabedoria no seu coração-consciência, as suas palavras
tornavam-se carne do mundo e realidade derradeira.
Uma tal tarefa, obviamente, não podia ser entregue ao primeiro que chegasse. Assim, havia um
processo de «iniciação real», através do qual o candidato ao trono era preparado e purificado.
Num sentido mais amplo, Pharaó, o iniciado, era levado a entrar no seu próprio interior, a
percorrer uma via que lhe permitia penetrar na comunidade dos seres que procuram o
Conhecimento. A ele, era-lhe concedido o direito ao kheper, à transformação.
Curiosamente, na tradição primordial egípcia não existiu um livro sagrado definitivo e dogmático.
Pelo contrário, propunham várias soluções, várias cosmogonias, capazes de irem ao encontro
dos mais diversos espíritos, abordagens diversificadas da «Última Verdade». Ora, foi
precisamente esta imagem de diversidade e de tolerância, centrada no papel de Pharaó como
grande regulador da harmonia universal e como elo de ligação entre todos os deuses e os
homens, a que persistiu no imediato, a que assegurou os monumentos imortais do Egipto
Antigo. Mas foi também através desta forma de pensar e viver que a civilização egípcia se
extinguiu, retornando ao oceano primordial das origens.
Quanto à outra via, a forma de visão de IkhnÁton, tenhamos em atenção que talvez não tenha
tido uma vida tão curta como nos pode parecer à primeira vida. Sigmund Freud, acreditava
fortemente que esta visão centrada no monoteísmo ético, como um archote luminoso, foi depois
empunhada por Moisés, o menino resgatado das águas (alguns autores situam o Êxodo dos
Hebreus no reinado de Ramsés II, o terceiro Pharaó da XIX Dinastia e cujo reinado se iniciou
cerca de 1290 a.E.M., se bem que outros apontem para a época de Meremptah, entre 1224 e
1204 a.E.M.). Deste modo, é das águas do monoteísmo atónico que o conhecido médico judeu
pensa ter brotado a corrente espiritual que, purificada nas suas vertentes éticas, frutificou através
das três religiões monoteístas que hoje se estendem a todos os confins da Humanidade. Mas,
como nos ensina a História, século após século, ciclicamente explodiu com manifestações de
intransigência: cristãos e islamitas guerrearam-se sem parar e, quer uns quer outros, nunca
pararam de manchar as mãos com o sangue dos judeus. Dentro da mesma religião, a cristã,
católicos, ortodoxos e protestantes perseguiram-se e assassinaram-se mutuamente ao longo
dos séculos. O mesmo podemos constatar entre os islamitas: sunitas e xiitas disputaram de
forma sangrenta a posse da «verdadeira herança» do profeta Muhammad.
Neste panorama global da espiritualidade humana, a Maçonaria, que não é uma religião, merece
ser referida de forma muito especial. Enquanto organização iniciática que antes de tudo é, a
Maçonaria constitui uma das vias possíveis na procura da Verdade, tendo por principais
objectivos, por um lado, o aperfeiçoamento moral dos seus membros e, por outro, o progresso da
Humanidade inteira. Ora, no seu interior, há homens que sob as mais diversas formas veneram o
Criador, a quem, de forma neutra, designam apenas por Grande Arquitecto do Universo. Todos,
em conjunto, trabalham para a Sua Glória. Isto é, o principal cunho da Maçonaria é a harmonia e
a tolerância fraternal entre todos os seus membros. É pois, na Maçonaria, que através de mitos e
ritos iniciáticos, assistimos ao permanente renascer e ao frutificar das mais ancestrais tradições
da espiritualidade. Sem quaisquer pretenções de exclusividade, esta via simbólica parece-nos ser
um dos mais potentes motores de aperfeiçoamento da Humanidade, capaz de voltar a unir Fé e
Razão, Matéria e Espirito, Acção e Meditação e de recriar o homem total que retorna à Unidade
Primordial. Talvez por isso, a Maçonaria seja hoje a herdeira do melhor das duas tradições…Disse. (José Bispo Alves Martins)







