O ESPÍRITO DA VIDA
Como discípulo de Oswald Wirth, ou mais exatamente, do espírito wirthiano que ele descrevia como maçonismo (que não é um sistema, ao modo de outros “ismos”, senão uma atitude vital, como, por exemplo, o otimismo), creio fundamentalmente na Vida.
Dizia Jiannis Corneloup, um wirthiano muito mais eminente e distinto que eu, que a Vida é a tendência arquitetônica que tem o Universo a criar estruturas cada vez mais complexas. Poderia se falar, portanto, de dois aspectos essenciais da Vida: movimento organizador e evolução contínua.
Isso é o que se percebe, tanto ao nível microscópico quanto ao macroscópico. Para alguns, se o espaço e o tempo forem infinitos, ou algo parecido, o imenso número de combinações de matéria-energia produzidas haveria resultado aquilo que, dento de nossa capacidade de percepção, consideramos estruturas estáveis, que se repetem sempre que as condições são favoráveis para isso. Para outros, a formação das diversas estruturas se deveria a um plano organizador inteligente, de origem divina, ou [para outros, ainda,] seria resultado direto da inteligência universal que há em tudo o que existe, como se cada partícula de energia fosse algo assim como uma ínfima manifestação dessa Inteligência universal. A primeira [posição] constituiria uma apreciação materialista, a segunda seria espiritualista-religiosa e a terceira espiritualista-panteista. É verdade que existem diversas interpretações panteístas. Recordo que o pároco de uma importante paróquia de Madri, que foi meu professor de religião no Instituto, quando eu tinha 14 anos, sempre nos dizia que o “panteísmo” é absurdo porque, se tudo é Deus, não cabe na cabeça de ninguém que um gato possa ser Deus. Era a estreita forma habitual de ridicularizar o desconhecido ou o proibido na Espanha daquele tempo. Aquele bom ser humano sim, é que era um materialista. A inteligência que se manifesta nos componentes elementares do universo impulsiona ou motiva esses componentes a um devir contínuo, no curso do qual se produzem e sucedem imensas possibilidades combinatórias. O resultado seria seguramente uma equação matemática que poderia, em um dado momento do processo, ser interpretada, desde uma determinada perspectiva, por alguma das sínteses inteligentes aparecidas dentro do próprio sistema. A soma das observações, no espaço-tempo, poderia por em relevo que cada porção mínima de energia assim ativada desempenha uma função concreta na grande construção universal. Sem dúvida, somente através dessa grande obra, deduzindo suas constantes e analisando as leis ou cadências de suas estruturas e de sua dinâmica, podemos obter imagens da natureza dessa Inteligência cósmica com a qual tudo está em correspondência e com a qual tudo pode identificar-se de alguma maneira. O que foi dito responde a uma intenção racionalizadora ou exotérica que coloco a mim mesmo e que alguns parecem ter podido superar mediante a ascese mística. O misticismo é outra via de acesso ao conhecimento, a partir das semelhanças que podemos encontrar entre nós mesmos, os processos psicossomáticos pessoais que configuram nosso “eu” mais sutil e as estruturas semelhantes de tudo o que existe. O místico é o que se refere aos mistérios, isto é: ao que existe por trás das aparências estruturais que percebemos através dos sentidos. Essas aparências poderiam ser interpretadas ou decifradas utilizando corretamente a soma de inteligências integradas na arquitetura do Ser humano. Nessa forma de conhecimento do esotérico se avança mediante um treinamento no exercício das potências que existem em cada ser humano, considerado integralmente e não apenas como “ser racional”. A razão é uma faculdade humana importante porque coordena grande parte dos dados que somos capazes de receber através de nosso corpo (incluindo nosso campo magnético), permitindo-nos assumir nossa identidade pessoal. Portanto, seria possível considerar que o corpo é o aspecto exotérico de cada um de nós. Algo assim como um pequeno templo ou estrutura específica, construída com Vida cósmica.
Eu tenho a sensação, hoje em dia, de que o espírito é, precisamente, esse impulso organizador vital que se manifesta na dinâmica universal e que dá sentido a tudo o que existe. O Espírito de Vida seria a essência do universo. Não sei se o que querem dar a ele outro nome preferem chamá-lo Deus e se, àqueles de nós que não gostamos de nenhuma denominação derivada de uma tradição religiosa conhecida, se pode chamar “ateus”. Creio que dedicar minha vida a averiguar qual possa ser a origem específica do impulso vital que estrutura o Universo não é a responsabilidade maior que tenho como ser humano. Me parece que no conhecer-me a mim mesmo está implícita uma profunda reflexão sobre minha relação com tudo quanto me rodeia e cheguei à conclusão de que sou parte desse Todo. Minha primeira responsabilidade, como ser inteligente, se baseia em compreender como devo atuar auxiliando a evolução em cujo processo se desenvolve minha existência, tendo em conta as limitações que vou detectando em mim mesmo. O que tenho que fazer é ser um homem que está aqui e agora, reconhecendo-me como parte de um projeto do Espírito, que habita em mim estruturando-me física e mentalmente. Aprender a ver nos demais seres humanos outras partes equivalentes desse mesmo projeto, é uma conclusão inevitável. Este modo de entender nosso Universo é também o de muitos maçons.Não supõe a negação das versões simbólica contidas na maior parte das religiões positivas. Põe simplesmente em relevo que o que nos importa é a Obra Universal em si e o modus operandi implicado no Ordo ab Chao que é o lema de nossa inquietude construtora. O que revela ou manifesta essa Obra é a mensagem a decifrar maçonicamente. Tudo o mais nos será dado por acréscimo.O coração, querido Alfredo, tem que seguir simbolizando o centro ou chakra que condensa e irradia esse espírito essencial que chamamos Vida. O que aprendemos a racionalizar e ordenar são os “encontros” da Inteligência universal que há em nós mesmos com as outras manifestações dessa mesma Inteligência. Aprender com o coração e a mente sintonizados, tem esse sentido. A Iniciação tem como premissa “voltar a nascer”, o que significa deixar novamente limpas as linhas que unem coração e mente, retirando delas os obstáculos que chegam a obstruí-las tão freqüentemente: preconceitos absurdos, medo existencial – gerador de complexos e neuroses.







