A VACA E A CENOURA
JAMES EPHRAIM
LOVELOCKé um
daqueles superdotados que nos põe a todos felizes por pertencermos à espécie
humana e um tanto invejosos da sua sabedoria. Investigador em várias áreas,
inventor e colecionador de doutoramentos – Física, Química, Medicina,
Matemática –, a sua fama em todo o mundo derivou sobretudo das suas originais
propostas, por vezes muito controversas, como ambientalista.
É o grande arauto da chamada Hipótese
Gaia, que procura explicar o comportamento sistémico do nosso planeta, olhado
como um superorganismo. Contra a corrente dominante entre os ambientalistas, é
um defensor acérrimo do nuclear, que considera a única alternativa realista aos
combustíveis fósseis para dar resposta às enormes necessidades energéticas da
humanidade sem aumentar os gases com efeito de estufa.
Lembrei-me de o trazer aqui, não
propriamente para desenvolver as questões atrás referidas, mas porque me
lembrei duma sua frase bem-humorada. Perguntado por que se tornara vegetariano,
respondeu: «É que, quando se lhe espeta uma faca, uma vaca grita mais do que
uma cenoura».
Isto transporta-nos para uma dimensão
ética da vida, mas também não é disto que quero falar. Competentes nesta área
serão as pessoas ligadas ao PAN, o partido dos amigos dos animais. Eu prefiro
falar para os pecadores, principalmente para aqueles que são capazes de tornar
o mundo melhor sem deixarem de ser egoístas.
Longe de mim, creiam, querer converter
os meus leitores às delícias da alface e da cenoura, mas já pensaram que as
grandes manadas de gado bovino causam mais prejuízo ao buraco do ozono do que a
circulação automóvel?
Meus amigos, é preciso ser egoísta, mas
consequentemente.
Acham racional que, na alimentação dos
animais que transformamos em alimento, se gastem quatro quilos de proteínas
vegetais para obter apenas um quilo de proteína animal?
E sabem que mais? As próximas guerras de
países vizinhos terão como motivo a disputa da água, que se está a transformar
num bem demasiado escasso. Antigamente, no interior do país, era vulgar um
vizinho matar à sacholada o outro que lhe desviava o rego de água das regas. É
isto que se vai passar entre países vizinhos, se não arrepiarmos caminho.
A sachola ficou só para as batatas
quando a água pareceu ficar abundante pelo recurso a represas, barragens e
furos artesianos. Porém, quando se percebe que um dado campo suscetível de
produzir 100 toneladas de batata, transformado em pasto não conseguirá sequer produzir
uma tonelada de carne bovina, percebe-se também como somos irracionais na
produção, principalmente se soubermos que um quilo dessa carne nos pode custar,
no mínimo, 10 mil litros de água.
Devíamos levar o nosso egoísmo a sério.
Já viram que, para produzir um quilo de arroz, precisamos de cerca de 2 mil
litros de água, ao passo que um quilo de carne bovina nos exige cinco vezes
mais?
Ser egoísta pode ser uma grande virtude.
(Abdul Cadre – Portugal)







